Este blogue é um ponto de encontro com amigos desconhecidos que se reconhecem nas palavras e nos gestos, aqueles por vezes tão comuns que deixamos de reparar, até alguém nos voltar a falar deles, como se fosse a primeira vez.

Música

Mostrar mensagens com a etiqueta Na Gaveta do Coração. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Na Gaveta do Coração. Mostrar todas as mensagens

3 de maio de 2020

Mãe

 
Mãe


Mãe é sorriso,
Feliz ou triste,
É carinho,
É perdão.

Mãe é abraço,
Baloiço que embala
No regaço,
Numa canção.

Mãe é farol,
Luz intensa
Que ilumina
Na escuridão.

Mãe é árvore,
Mil braços
Que se estendem
Dum coração.

Mãe é ponteiro,
Relógio de peito,
Em constante
Palpitação.

Mãe é abrigo,
Porto seguro,
Escudo, manta,
Proteção.

Mãe é raíz,
Terra firme,
Caminho,
Direção.

Mãe é pedestal,
No cume os filhos,
Brisa de coragem
Montanha de afeição.

Mãe é tudo,
Anjo sem asas,
Amor incondicional
Esperança,
Dedicação.


Sandra Reis


 




19 de julho de 2019

O meu Lugar Preferido






Quando eu era pequena, ia com a minha mãe à praia no Verão, morávamos alguns metros acima apenas. Ela levava-me à praia num sítio onde as rochas formavam um "u" de costas para o mar, e, nesse sítio, no momento certo, quando as ondas se desfaziam na areia, entrava alguma água para dentro desse "u" formando um pequeno "lago". A água dava-me pouco acima das canelas, e era assim todos os dias, imutável, seguro.

Lembro-me da minha mãe sentada na areia perto de mim a observar-me, enquanto eu brincava com as outras crianças na água, e, às vezes, deitava-me na água como se fosse nadar, dava um impulso naquele pedacinho de água salgada com os joelhos pousados na areia, e gritava: “Mãe, olha, estou a nadar!”, para mim aquilo era nadar.

Ao longo dos anos, o nível do mar continua a subir, cada vez a praia fica mais pequena e só consigo ver o meu pequeno "lago" quando a maré está muito baixa, mas mesmo assim, quando me sento ali à beira-mar, embora ninguém veja as rochas, eu vejo tudo como se nada tivesse mudado, reconheço o pedaço de areia onde a minha mãe se sentava a ver-me “nadar” e consigo ver o "u" escondido debaixo das ondas do mar.

E, embora, aquilo que eu pensava ser imutável, tenha realmente mudado, para mim não mudou. Ali sinto-me bem, sinto-me em paz, sinto-me feliz, simplesmente, com a maresia na minha cara, a ver e a ouvir o mar por cima do meu pequeno "lago", imutável, seguro.

Sandra Reis


(Fotos tiradas por mim - Praia das Sereias - Espinho)

19 de março de 2019

Um Pai que brilha


Se me perguntarem do que é que eu gosto, bem, eu gosto de tanta coisa, não seria possível dizer uma ou duas coisas, mas é possível dizer que gosto de tudo o que espalha alegria. Todas as coisas bonitas e valiosas que, por vezes, nem reparamos. Coisas simples, banais às vezes, mas cheias de significado.

Não sei se nasci assim ou se foi fruto da minha experiência, o meu pai dava importância a todas as pequenas coisas que muitos nem ligam e sempre que as via ele chamava-me, podia nevar todos os dias que ele chamava-me todos os dias para eu ver. Sempre com o mesmo entusiasmo. Um arco-íris, um grupo de patos a voar, granizo nas janelas, a lua, as estrelas, a cor do pôr-do-sol, um gato a saltar, um cão de barriga para o ar, uma criança a rir, um reflexo nas poças de água, sombras animadas, dentes-de-leão para soprar, pinhas para apanhar, bolotas, cerejas nas orelhas, a cor do céu, as formas das nuvens, nada lhe escapava, tudo era fantástico. Ainda é assim.

Acho maravilhoso podermos ser assim. A minha mãe, ainda lhe diz muitas vezes que ele parece uma criança. Embora ele tenha aquele brilho que vemos nos olhos das crianças, para mim ele não é uma criança, mas sim o melhor pai que eu poderia ter. Um pai que me mostrou tantas coisas, ensinou a soprar nas folhas das árvores para fazer música, a jogar à bola mesmo sendo rapariga, que brincou comigo no chão fosse com carros ou bonecas, que por mais cansado que estivesse do trabalho, arranjava sempre tempo e um sorriso para mim, tempo para me levar ao parque, à praia a apanhar pedrinhas, a comer bolacha americana, a ver os aviões aos domingos, que me ensinou tantas coisas engraçadas e dedicou todo o seu tempo a fazer-me sorrir.

Não é maravilhoso podermos crescer, tornar-nos adultos, trabalhadores, responsáveis e conseguirmos ver o Mundo com olhos de criança? Não seria o Mundo mais divertido, fabuloso e VALIOSO para nós se o víssemos assim? Um mundo em que todos os pormenores que lhe fomos descobrindo desde criança, continuassem a ser mágicos e surpreendentes todos os dias, e que, mesmo sendo imutáveis e constantes, fossem sempre capazes de nos fazer sorrir de felicidade como se os víssemos pela primeira vez.


Sandra Reis

15 de março de 2019

Os meus amores


O gravador e as cassetes do meu pai / Foto tirada por mim

Foi aqui que tudo começou. Ainda era uma bebé quando descobri o meu primeiro amor, a Música, com o gravador do meu pai, observava fascinada os ponteiros do medidor de intensidade a mexerem com a minha voz, foi aí que senti, pela primeira vez, a cantar, a certeza de que ali estava no meu mundo, completa.

Ensinar foi o meu segundo amor, com 4 anos, ainda não sabia ler nem escrever e já dava "aulas" de quadro e giz aos meus primos mais novos (sabe-se lá bem do quê), sentados em mesas com cadernos onde eu rabiscava "certos".

Quando eu tinha 6 anos, os meus pais trouxeram connosco um gato que estava prestes a ficar sem casa, depois dele veio outro gato, mais tarde o meu cão, e fui criando laços de amizade incondicional com eles, aprendi a comunicar com eles, pelo olhar, como se falássemos a mesma língua pelos pensamentos, e descobri o meu terceiro amor, os Animais.

Aos 12 anos descobri o meu quarto amor, Escrever, sentia que era mais fácil "falar" por palavras manuscritas, sentia necessidade de escrever para me libertar, para me "ouvir", para ser eu própria, descobri que a caneta me levava para sítios onde nunca estive.

O meu quinto amor, descobri aos 14 anos, a Pintura, quando pintei numa tela pela primeira vez, e percebi que, ao contrário do que eu imaginava, era o pincel que guiava a minha mão, que levava com ele os meus dedos, que me sentia completa a pintar, desde esse momento percebi que seria para sempre.

Cresci, e acabei mesmo por escolher o curso de Professora Primária, como eu dizia aos 4 anos, ensinei durante oito anos, e uns anos mais tarde compreendi que provavelmente nunca mais voltaria a ensinar, nunca mais iria voltar a ser Professora, como milhares de Professores em Portugal, tive que aprender a aceitar isso  à força, mas admito que ainda não acredito que isto é a quase certa realidade... Já não ensino há oito anos...

Neste turbilhão de desilusões acabou por acontecer uma coisa há uns anos atrás. Como ajudar Animais era tão natural para mim como acordar de manhã, porque não sou capaz de fechar os olhos, de ver um animal a precisar de ajuda e seguir o meu caminho, não consigo dormir até fazer alguma coisa, então, não sei como, um dia dou por mim a juntar o meu amor pelos Animais, pelo Ensino, pela Escrita e pela Pintura, num só, e percebi que tudo fazia sentido. Comecei a escrever e a ilustrar livros Infantis com um propósito educativo, sensibilizar para o respeito pelos animais. Não pus a música de lado, está na minha vida a todo o momento, não a largarei jamais.

Um dia chegou o meu sexto amor. O último de todos os meus amores, o último que descobri e encontrei dentro de mim, que, como a certeza tão fresca e reveladora das primeiras gotas de orvalho da vida, me conquistou de forma profunda e eterna. As minhas duas pequeninas. Foram o último amor que surgiu na minha vida, mas são o mais importante de todos.
Agora sei, podia viver sem nada, mas jamais poderia viver sem elas <3

Sandra Reis 

As minhas pequeninas a conhecer o Mundo / Lisboa 2018 / Foto tirada por mim

11 de janeiro de 2019

O meu cão

Depois de uns dias de ausência, posso finalmente regressar ao meu Castelo Quase Encantado, e aos vossos Blogues. Obrigada a todos os que me têm acompanhado, sinto-me feliz e sortuda por ter conhecido tantas pessoas maravilhosas nestes meses. Desejo a todos um 2019 muito MUITO Feliz!

O meu Cão




"Enquanto não amarmos um Animal, uma parte da nossa alma permanecerá adormecida" 
Anatole Franco


Agora são muitos os livros sobre os nossos cães, os nossos gatos, há imensas histórias para contar sobre os os nossos amigos animais, eu também tenho muitas histórias com animais, umas melhores, outras piores. Os meus animais sempre foram e são especiais para mim. Foram muitos os que passaram pela minha vida, muitos os que ficaram para sempre. Mas hoje vou falar apenas do meu cão. Aquele que para mim era como um irmão.

O meu cão chamava-se Elvis
Era meigo, esperto, adorava crianças, cães, gatos, pássaros, queria brincar com tudo o que se mexesse, nunca magoou nenhum.

O Elvis adorava dar saltitos quando corria, rasgar papel, dormir de barriga para o ar, queria sempre ajudar, levando qualquer coisa na boca quando estávamos a chegar a casa, ou a trela ou um porta-moedas e ele ficava todo contente.
Adorava pegar na pontinha das almofadas, maiores que ele, com a boca e arrastá-las pela casa enquanto se abanava para nós, feliz.
Adorava puré e peixe cozido.
Corria para a beira dos nossos gatos quando miavam para os ajudar.
As orelhas do Elvis saltitavam quando ele saltitava.
Quando lhe perguntávamos onde tinha posto o chinelo ele ia buscá-lo,
Quando lhe perguntávamos pelas chaves que ele escondia mal entrávamos em casa para não sairmos, ele ia ao sitio mostrar-nos onde estavam.
Quando lhe perguntávamos pela bola ou pelo osso ou outro brinquedo ele sabia qual era e trazia-o.
Quando lhe dizíamos "olha a mosca", ele olhava à volta à procura,
Quando lhe dizíamos "olha um avião" ele olhava para o céu,
Quando lhe perguntava pelo meu pai ele ia a correr procurá-lo pela casa e dava um saltito a olhar para mim quando o encontrava.
Se lhe dissesse que o meu pai estava na cozinha ele ia directo à cozinha...
Ele entendia tão bem quando lhe dizia vai à cozinha, quarto ou sala, assim como rua.
Ele aprendeu dezenas de palavras, sem nunca procurarmos que o fizesse, apenas com a convivência, com a comunicação que existia entre nós.
Não havia ninguém mais feliz no Mundo quando eu chegava a casa, quando os meus pais chegavam a casa.
Foi o melhor cão do Mundo para mim e nunca deixarei de sentir saudades dele.
Foi dedicado e fiel a vida toda.
E embora não falasse, disse-me muito com o olhar, com a cauda, com os movimentos e os latidos, com o carinho, apoiou-me e esteve sempre lá quando precisei dum amigo e não tive ninguém por perto.

O Elvis nasceu em 1997 e faleceu em 2007, foi feliz e tratado como família durante toda a sua vida.

Cuidem Sempre dos Animais
 

Sandra Reis

16 de dezembro de 2018

Abraça-me depois de Partires



Vi-te ao longe, olhavas e sorrias para mim, o mesmo brilho nos olhos, o mesmo sorriso honesto de há vinte e um anos atrás.

Fui ao teu encontro a correr, no anseio de mais um abraço, na esperança que não te fosses mais… Agarrei-te com toda a minha força, sabia que assim não poderias partir, apertaste-me com força e carinho, o teu queixo na minha cabeça, senti-me protegida, senti tanta paz… Que saudades que eu tinha do teu cheiro, não queria mais sair de dentro do teu abraço, não podia mais largar-te…

Fizeste-me tanta falta, fiz tantos trilhos de vida sem ti, virei tantas páginas, nunca encontrei ninguém como tu. Fazias-me sorrir quando o meu mundo desabava, fazias-me sorrir todos os dias, defendias-me, protegias-me, alumiavas o meu caminho…

Nunca mais voltei a ver um jogo de hóquei sem ti, a última vez que nos sentamos juntos nas bancadas, escreveste no meu caderno: “Gosto de ti x 10000000000000000000000000”… O peluche que me deste com a mensagem “Não mudes nunca” ainda está comigo, velho, descolorido mas intacto como os meus sentimentos… Gostavas de mim na minha perfeição e imperfeição...

Todos te seguiam, movias o Mundo, agarrei-te ainda com mais força não te podia deixar partir de novo, tanta coisa para te contar, para te mostrar, para te partilhar, tanta gratidão e tanto amor guardado para te dar.

Era tão bom estar assim, outra vez no teu abraço… Apertavas-me com força, sentia-me de novo protegida, feliz. Olhei-te nos olhos novamente, o brilho deles enchia-me o coração de calor, mais do que qualquer sol quente de verão. Éramos tão novos quando partiste, tão inocentes, a tua inocência mantinha-se inteira, a minha, a vida tinha-a partida aos pedaços e maior parte deles perderam-se entre as dores e as pedras do caminho… Quando partiste éramos já crescidos, mas só em altura, por dentro éramos crianças, e, para mim, eras o Mundo inteiro…

Fechei os olhos, abracei-te com toda a minha força, para não poderes partir, não queria voltar a perder-te, não queria sentir mais aquele choque repentino no peito quando acordava de manhã ansiosa por te ver e, de repente, recordava a áspera verdade, que já não estavas cá, que te tinha perdido para sempre, mas o destino é a única coisa que ninguém nos tira, e quando abri os olhos, eu estava sozinha outra vez.

Nos meus braços estava o vazio que deixavas, e, foi nesse instante, que acordei e percebi que era um sonho, ou talvez não fosse um sonho, talvez me tenhas vindo ver mais uma vez, tudo o que sei é que te foste, se estás no céu, será um céu especial, onde estão os puros e os animais que tanto adoramos, e isso conforta-me um pouco.

Mas as saudades vivem e viverão em mim, para sempre. Eras o meu melhor amigo, como um irmão verdadeiro. Jamais te esquecerei, jamais poderia esquecer-te. Tu mudaste a minha vida, imprimiste em mim o teu coração, a tua sensibilidade e empatia, fizeste-me amar ainda mais todos os seres vivos, fizeste-me ter forças para lutar, fizeste-me acreditar que há mais do que aquilo que podemos ver ou alcançar, há mais para além de tudo aquilo em que acreditamos, há sempre mais, quando a estrada parece que acabou devemos continuar o caminho porque haverá mais para descobrir e aprender, mais para viver, mais para sonhar e lutar, mais para sorrir.

Trouxeste contigo a coragem, no teu sorriso, no brilho dos teus olhos, trouxeste-me a esperança em cada abraço que me vieste dar depois de teres partido para sempre…


S.R.

Para o meu melhor amigo:
Nuno Filipe Miranda dos Santos
(15.12.1975 - 20.01.1997)

24 de outubro de 2018

Onde quer que estejas...



Lembro-me tão bem do teu sorriso, da tua voz, das tuas mãos compridas, dos teus dedos tão definidos, das ondas douradas no teu cabelo castanho, dos sinais na tua cara, do teu nariz, da tua boca, do teu olhar claro, transparente e humano…


Lembro-me de como me protegias, como me fazias rir sem parar, de como corrias a jogar, lembro-me de todos os fins de tarde que foste ter comigo à academia só para me acompanhar até casa, lembro-me do fim de semana em que tiveste dispensa na tropa e me vieste visitar cheio de fotos para me mostrar, lembro-me das histórias que me contavas, das piadas que inventavas, lembro-me de toda a alegria que transbordavas…

Lembro-me de ti tão perfeitamente, tão pormenorizadamente, que há dias em que acredito que te vou voltar a ver, há dias em que acredito que não te foste embora, dias em que te sinto tão perto de mim, tão em mim, que parece que te sinto a respirar, que parece que sinto o teu cheiro, que parece que tudo o que vejo à minha volta estou a ver através da cor dos teus olhos…

Mas as saudades são tão grandes… Tenho saudades tuas tão dentro de mim, estás tão comigo sem te ver que és parte de mim, mas falta-me o teu carinho, sem ti falto eu em mim, preciso tanto de sentir o teu abraço, preciso de me fundir nos teus braços para me sentir completa em mim de novo… Preciso de mais um abraço teu… Anda-me abraçar… Hoje preciso de ti, basta-me um abraço teu para já…

Nunca tivemos irmãos, não sabíamos como seria esse tipo de amor, mas há tantos que têm irmãos e nem sequer são amigos ou se falam sequer. Eu tive a maior sorte do mundo em te conhecer, ainda que por um breve momento da vida, tu mudaste-me completamente, sem sequer me quereres mudar… Em poucos anos a nossa amizade era tão forte, tão intensa como a de dois irmãos que conseguem falar sem palavras, éramos irmãos de coração, um amor sem igual, um amor com mil formas que desconheciamos até aí. Protegias-me como um pai, fazias-me sorrir como um amigo, abraçavas-me como um irmão… Encontrei em ti todos os tipos de amor.

Nem todos sabem como é ter um irmão, e mesmo quem os tem nem sempre é um verdadeiro irmão… Mas poucos saberão como é ter um irmão de coração, é um amor que fica cravado para toda a vida em nós, é um amor que poucos compreenderão. E hoje, sinto tantas saudades tuas, como um desespero que corre dentro das minhas veias sempre às voltas sem parar, um desespero que me faz querer chorar alto e atirar para o chão, mas não o faço, deixo as lágrimas cairem simplesmente, em silêncio, quieta e espero por ti… Por mais um abraço, para já…



Quando te comecei a amar nunca pensei que te fosse perder, nunca pensamos isso dos irmãos, pensamos dos namorados mas dos irmãos não. E perdi-te, demasiado cedo, demasiado repentino, demasiado para ti, demasiado para mim, demasiado para aguentar…

Há muitos muitos anos atrás, passaste pela minha vida, ficaste por um instante, mudaste tudo para mim, fizeste-me ganhar um irmão, que nunca iria perder, e depois partiste, e atrás de ti ficou um vendaval, e nada acalmava, nada assentava de novo, nada fazia sentido, nada brilhava, não havia calor, não havia alegria, até que um ano depois apareceste, enquanto eu sonhava, e foste aparecendo assim, nos meus sonhos para me dar um simples abraço, um longo abraço tão real, tão forte, tão intenso, e hoje preciso de mais um…

És e serás sempre o meu melhor amigo, o meu Anjo, aquele que um dia veio mudar o meu mundo, para melhor.


Onde quer que estejas, Amo-te.

15 de setembro de 2018

Noites de Verão





É quase meia-noite, calço umas sapatilhas e saio de casa, a correr como se fosse a Cinderela a sair do Castelo para voltar à vida real, sendo que aqui a vida real é bem melhor. Não são insónias nem a habitual vontade de estar acordada, porque à noite, no silêncio, vem sempre a inspiração, principalmente nas noites de Verão, adoro as noites de Verão. Mas não é nada disso. Entro no carro e sigo em direção à praia. Sento-me na areia e espero que os meus olhos se habituem à escuridão, há seis anos que espero por este momento, ouço apenas o mar, fecho os olhos um minuto enquanto ouço as ondas e inspiro a maresia, quando os abro é como se acordasse para a vida, começo a ver estrelas e mais estrelas, até que percebo a infinidade de estrelas que consigo ver quando não há luz, nem ecrãs! À minha frente vejo Vénus, ao lado esquerdo Júpiter, vejo pela primeira vez um satélite a passar lentamente na sua órbita habitual da Terra, viro-me para a esquerda e vejo um ponto luminoso amarelo alaranjado super brilhante, mas na verdade não brilha, é um planeta, é Marte, mesmo quase ao lado direito de Marte avisto um ponto mais pequeno, Saturno, que vejo pela primeira vez. Deixo-me cair sobre a areia e em cima começo a perceber a via láctea, atrás de mim vejo a cassiopeia, e mesmo por baixo dela as Perseidas, não podia ser mais fantástico, olho de novo para cada um dos quatro planetas, e depois volto-me para a cassiopeia com dificuldade em tirar os olhos dos planetas, porque me sinto fascinada pelo Universo, pelo misterioso, grandioso e lindo Universo, e vejo duas estrelas cadentes mesmo à direita das Perseidas, e mais outra... Sou invadida pela mesma sensação de encantamento que havia sentido há seis anos atrás, quando assisti pela primeira vez, por mero acaso, a uma chuva de meteoros em Agosto.

Fico deitada ali, não importa mais nada. O ar é quente, sinto aquele “cheiro” das noites quentes de Verão e sinto saudades da “verdadeira” noite de Verão, aquela que supera todas as outras, ou muitas que se juntam numa só memória. Não falo de noites de festa. Falo das primeiras vezes de “tudo” nas noites de Verão. A primeira vez que caímos duma “colina” de areia na adolescência com os irmãos, primos ou amigos. A primeira vez que molhamos os pés à noite, e a água está morna e o céu estrelado, e nunca mais esquecemos como é bom aquele momento, um momento que se imortaliza na nossa memória por ter sido na adolescência, a idade em que descobrimos e queremos perceber o mundo, a idade em que despertamos da infância e queremos saber o que é e quem somos. A primeira vez que vemos a maré baza até ao fim do longo esporão da praia e caminhamos até lá com alguém especial, pela areia molhada iluminada pela lua cheia. A primeira vez que alguém nos escreve “Amo-te” em letras gigantes na areia, mesmo junto à ponta do esporão, onde há apenas um areal enorme com rebordos de água calma a reluzir o brilho da lua. Tentamos memorizar aquela imagem para que dure até ao fim da nossa vida porque sabemos que em poucas horas o mar voltará a cobrir todos aqueles metros de areal e a apagar o “Amo-te” para sempre. A primeira vez em que nos deitamos na areia à noite e olhamos o infinito, as estrelas e nos sentimos pequenos, tão pequenos, e percebemos por instantes a dimensão de tudo o que existe à nossa volta. A primeira vez que damos um beijo na praia com o luar reflectido nas ondas do mar…

Quando somos novos temos uma liberdade à qual não damos valor, apesar de termos regras, horários impostos pelos pais, temos uma liberdade que só valorizamos quando somos mais velhos e compreendemos que aquilo era realmente Liberdade, e temos um emprego, uma família, uma vida com as obrigações normais. 

Há que apreciar e dar valor a todos estes pequenos momentos, pormenores, descobertas, são portas que se foram abrindo para nós, para um mundo de sonhos, memórias e conquistas fantásticas. Nunca devemos subvalorizar os pequenos momentos da adolescência. Eles vão moldar-nos, acompanhar-nos, fazer-nos crescer e, quando formos mais velhos, vão fazer-nos sorrir e encher o coração de uma alegria cheia de amor, que nos faz bem.   

S.R.

24 de agosto de 2018

Blogue, meu adorado Livro Encantado


No outro dia, um amigo meu, também escritor e artista, disse-me que eu tinha muita coragem por partilhar os meus trabalhos no blogue. Não sei se será preciso coragem, uma vez que escrever sou eu a ser eu própria, sem filtros, faz parte de mim e dá-me um prazer imenso.

A verdade é que em Portugal é muito difícil ser-se publicado (a menos que se tenha "nome" ou  conhecimentos). As editoras dizem que publicam pela qualidade literária mas são aos milhares os livros que vemos nos supermercados e livrarias sem qualidade literária nenhuma, apenas têm um ponto em comum, são do interesse das massas, são livros sobre vidas alheias, sobre poderes espirituais, curas milagrosas, biografias de famosos. São livros que não considero de qualidade literária.

Já passei pela dura experiência de publicar um livro numa dessas editoras que nos cobram, fui iludida de todas as maneiras possíveis, paguei um balúrdio por 500 livros, assinei um contrato que dava para os dois lados, mas quem não sabe é como quem não vê, certo? Tive que ser eu a vender os meus livros, tinha que lhes pagar metade do valor do livro para os ter em posse e vender, e eles nem a parte da promoção cumpriram, a fnac portugal aceitou colocar lá os livros e a editora nunca os levou, contudo, os livros que o próprio editor ia escrevendo estavam todos na fnac, prateleiras acima e bem visíveis. Um dia, uma amiga que trabalhava com o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, entregou-lhe o livro por mim, poucos dias depois ele ligou-me para o telemóvel pessoalmente para me dizer que tinha adorado, que se tinha rido imenso durante a viagem de avião para algures em África com o meu livro e que eu tinha que ir a Lisboa tomar um café com ele, depois disso ainda foi ao post do meu livro e deixou um comentário também.

01 maio, 2010 23:06
Muitos parabéns!Gostei imenso de ler!
Marcelo Rebelo de Sousa

Fiquei infinitamente feliz porque o admirava como pessoa, era importante para mim que ele tivesse gostado do livro claro, mal sabia que um dia seria o nosso Presidente, mas à parte isso, quando o editor soube do Prof. Marcelo, mesmo tendo ele adorado o meu livro, não foi o suficiente para a editora fazer mais pela promoção. Assim acabou por chegar o fim do contrato de dois anos, todos os meus livros não vendidos, ficaram na posse da tal editora, e se eu quiser algum tenho que pagar.

Resumindo, paguei tudo e fiquei sem nada. Neste negócio a parte humana dos editores é suprimida pela ganância, de forma que todo o cuidado é pouco (não digo com todos, claro, não conheço todos, mas tenho dois amigos que já foram vítimas de roubo de propriedade intelectual por parte de editoras). Andei uns anos com medo e da última vez optei por me publicar a mim, pedi um ISBN à Agência Nacional de ISBN e uma gráfica fantástica aqui perto do Porto, a SerSilito, fez o trabalho restante todo, sempre a virem cá a casa confirmar cada pormenor. Adorei a experiência, mas depois surgiu outro problema, a divulgação, a promoção do livro. Como promovê-lo, como fazê-lo chegar às livrarias, como publicitá-lo? Somos formigas a lutar contra gigantes nesse campo. Só as editoras o conseguem. Assim não digo que desisti da batalha, porque não desisti, mas agora fico apenas por aqui pelo blogue. Aqui sinto-me bem a escrever.

Claro que continuo a escrever os meus livros, mas esses vão ficando na prateleira para já, como se costuma dizer "gato escaldado, de água fria tem medo" e para já não me sinto com vontade de publicar um livro sozinha sem meios de publicidade... Se um dia uma editora quiser publicar algum deles, daquelas editoras tradicionais que publicam sem encargos nenhuns para o autor, óptimo, claro que seria fantástico, mas para já não os tenho enviado, porque já enviei demasiadas vezes e perdi um pouco da fé, da paciência e da coragem para ouvir "nãos" que nos deixam tristes.

Por isso, como eu disse, o meu blogue é o meu Livro Encantado onde posso escrever o que quiser, onde me sinto bem, porque ao fim destes anos no blogue aprendi que não preciso duma capa para me sentir realizada, bastam-me as páginas.

Escrever para vocês é das coisas que me faz mais feliz na vida! Por isso, a todos os que aqui vêm espreitar e ler de vez em quando, MUITO OBRIGADA!

Sandra Reis