Este blogue é um ponto de encontro com amigos desconhecidos que se reconhecem nas palavras e nos gestos, aqueles por vezes tão comuns que deixamos de reparar, até alguém nos voltar a falar deles, como se fosse a primeira vez.

Música

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3 de julho de 2019

Nas Notas do nosso Destino



Enquanto conduzia até ao Concerto, sentia-me novamente uma adolescente apaixonada. Aquele sentimento avassalador que nos faz palpitar o coração com demasiada força, que nos enche o peito de ar que parece que não sai, que nos faz brilhar os olhos como faróis no mar e sorrir de felicidade.
 

Tu não sabias se eu conseguiria aparecer e eu conduzia o mais depressa que podia para te dizer "Consegui! Estou aqui!". Estava ansiosa. Era a primeira vez que te ia ver a tocar. Quando te vi e chamei, no meio de toda a turbulência, de toda a multidão, vieste a correr ter comigo e apertaste-me com força, cheio de felicidade, e eu, abracei-te, com os meus braços e o meu coração.

Uns minutos depois subiste ao palco. Não consigo descrever o que senti ao ver-te e ouvir-te a tocar. Uma mistura entre admiração, orgulho e êxtase.


Cada corda que vibrava, tu vibravas com ela, cada som fazia-te brilhar por dentro, o teu corpo transbordava emoções e sentimentos. A cada solo que tocavas, eu via-te como nunca te tinha visto antes. A tua sensibilidade, a tua vulnerabilidade, a tua força, deixavam-te sem fôlego. Tu respiravas a música, como eu.

Conforme as cordas vibravam, as ondas de som agitavam todo o ar à minha volta, e transportaram-me, duma forma tão realista, duas décadas atrás, para ter a oportunidade de te reencontrar e te ver a tocar, quando ainda éramos adolescentes, naquela Academia de Música, onde nos cruzávamos nos corredores, onde te sentavas no banco do alpendre, mesmo por baixo da minha sala, com a guitarra ao colo nos fins de tarde.

Naquele instante, em que te vi tocar guitarra, reencontrei-te nos corredores da velha Academia e encontrei-te olhos nos olhos pela primeira vez.. tínhamos novamente 17 anos, tu tocavas guitarra na cave, eu cantava na torre do primeiro andar, ambos abafados pelo som dos saxofones no rés-do-chão.

Hoje o rés-do-chão da nossa história silenciou-se, para que nos pudéssemos reencontrar nas notas do nosso destino.

in  "Duas Décadas à tua Espera" (excerto III), Sandra Reis

11 de junho de 2019

Finalmente... Completos





Neste longo caminho tantas vezes pensei que tinha encontrado o amor… Tantas vezes o pensei ter perdido… Mas hoje, enquanto caminhava, ouvi uma voz ao longe que não me era estranha, uma voz que me fez estremecer, um som que trouxe milhares de recordações e imagens que pensava esquecidas e apagadas. E, logo ali, numa curva do meu caminho com o teu, num momento inesperado, cruzámo-nos pela primeira vez em vinte anos. Ao olhar-te nos olhos vi algo inexplicável, vi uma história dentro deles, ainda por escrever, e eu estava lá. Estavas parado sem te mexer a olhar-me nos olhos, senti-te tão vulnerável que me senti como um fogo a derreter um lago gelado há centenas de anos. Naquele instante eterno, em que os nossos olhos se encontraram foi quando percebi a verdade. Neste longo caminho cheio de desvios, separações e reencontros, nunca cheguei a perder o amor, porque, afinal, nunca cheguei a encontrar o amor, até te ter reencontrado.

Desde que nascemos as nossas vidas cruzaram-se, e, apesar de termos estado sempre tão perto todos os dias, de nunca termos ficado um único dia realmente longe um do outro, e de todos os que tu conhecias serem os mesmos que eu conhecia, de todos os sítios onde ias serem os mesmos onde eu ia, de todos os nossos caminhos terem sido os mesmos caminhos, de apanharmos as mesmas gotas de chuva no cabelo, de nos deitarmos na mesma areia e nos molharmos na mesma água do mar, de subirmos e descermos os mesmos degraus velhos de pedra, apesar de até os nossos sonhos serem os mesmos, nunca nos olhámos verdadeiramente, nunca falámos um com o outro.

Num dia, o destino decidiu separar os nossos caminhos, e durante duas décadas não nos voltamos a cruzar. Contudo aqueles que conheces continuam a ser os mesmos que eu conheço e os sítios onde vou continuam a ser os mesmos onde vais, mas os caminhos que seguimos passaram a ser diferentes, e cada vez que o tempo abranda para um, acelera para o outro.  E assim se passam, duas décadas sem nos voltarmos a ver, e um dia, os nossos caminhos cruzam-se novamente, duma forma explosiva, como se existisse um propósito maior. Sem sabermos ainda, começamos a perceber que, por alguma razão, estava destinado, sempre esteve... e sentimos isso porque faz sentido quando estamos juntos, porque somos perfeitos juntos.

Finalmente percebemos que todo o passado foi um caminho que fomos construindo para chegarmos um ao outro, como se existisse uma parede invisível estes anos todos que nos permitia estar próximos, mas inalcançáveis.

Um amor verdadeiro, em que não esperamos nada um do outro, em que nos apaixonamos de olhos vendados, sem influência física, um amor que todos procuram. Como se cada um de nós tivesse sido um pedaço desconhecido do outro num passado distante, e agora que os nossos pedaços desconhecidos se encontraram, nós ficamos, finalmente... Completos.


in "Duas Décadas à tua Espera" (excerto II), Sandra Reis
 

8 de outubro de 2018

Tenho que te encontrar



“Decidi escrever-te hoje. Duas décadas depois de termos trocado o último olhar. Hoje, porque o dia tornou-se claro para mim. Hoje eu tinha que te escrever. Hoje eu tinha que tentar. Porque se eu não tentasse não seria eu, se eu desistisse não seria eu, agora que vejo tudo tão claro, agora que a luz do Sol irradiou sobre mim como o acordar de um sono demasiado longo, agora eu tenho que te encontrar, finalmente percebi que tenho que te encontrar…

Se eu te dissesse que esta noite, sonhei contigo, achar-me-ias maluca?

Se eu te dissesse que esta noite senti o teu olhar dentro do meu, senti a força das tuas mãos nos meus braços, senti o sabor dos teus lábios, senti o teu beijo apaixonado pela primeira vez, senti o medo e a felicidade dum amor infinito, senti o meu coração a palpitar como o de uma adolescente, achar-me-ias maluca?

Se eu te dissesse que quando acordei me sentia feliz, que mesmo antes de abrir os olhos, eles pareciam nascentes de inverno, mesmo antes de eu sequer pestanejar, antes de eu sequer chorar, as lágrimas deslizaram, antes mesmo de eu perceber que tinha sido um sonho, antes de me sentir completamente abalroada pela luz do dia, antes de sentir uma espada fria a trespassar-me, antes de perceber que não te tinha esquecido, que ainda te quero, achar-me-ias maluca?

Quando percebi que não tinha o que realmente sempre quis, foi como o acordar num eclipse solar, sem poder ver o meu Sol, sem poder ver o meu Mar, sem Árvores, sem Som, sem Ar, sem poder respirar, como se não houvesse sequer uma brisa, um sopro de esperança nas folhas das árvores.

Talvez o aches. Éramos dois adolescentes, não éramos? Mas quem disse que os adolescentes não amam? As crianças amam, os animais amam, porque não poderia eu amar-te a ti também, mesmo que só tivesse 17 anos?

Talvez o aches se nunca tiveres amado ninguém verdadeiramente. Mas se tiveres amado alguém tanto como eu, alguém que desapareceu um dia na tua vida e nunca mais voltaste a encontrar, alguém que não te sentes capaz de ver ou ouvir tal seria a dor, alguém que queres tanto, mas tanto, que queres e não queres, encontrar novamente porque sabes que não serias capaz de o perder novamente. Mas como se pode perder alguém que nunca foi nosso?!…

Mas sabes, se eu desistisse de ti, se eu desistisse de te procurar, se eu desse este amor por perdido, não era eu, por isso, mesmo que o céu caia sobre nós, que o oceano nos afunde, que a terra se abra sobre os nossos pés, eu vou correr para te encontrar mais uma vez, porque pior do que sofrer é nem sequer ter tentado ser feliz, pior que não tentar, é viver num mundo em que tudo está ofuscado pela névoa das lágrimas, pior do que ser derrotada é nem sequer ter lutado… Só posso ser derrotada se lutar e eu não posso deixar de lutar, eu não posso desistir, não posso parar, agora que sei a minha verdade, preciso de saber a tua…

Nunca me deste uma oportunidade, uma oportunidade de te dizer o que sentia, de falar contigo, de te mostrar o que tinha para te dar, tanto… E eu peço tão pouco, quero tão pouco… Um beijo, seria difícil para ti? Só para eu perceber o que se passa dentro de mim, só para eu saber se isso me acordaria deste sono que dura há demasiados anos, para eu perceber se o meu coração ía bater mais depressa, para eu descobrir a minha verdade...

Sinto-me como se eu tivesse tentado viver dezenas de vidas nestas duas décadas, todas vazias, como se se passassem centenas de anos no meu coração embora as minhas rugas digam o contrário, como se não houvesse uma história sequer para contar, nem livros, nem rascunhos, e agora preciso perceber se vale a pena, esperar mais mil anos por ti…

O primeiro amor é aquele amor infinito, aquele amor que corrói se não procuramos as respostas, aquele amor que destrói se não lutamos por ele, aquele amor que é único, que se for correspondido é imortal. E quem não quer um amor imortal? Quem não quer amar e ser amado, para lá do sempre, pelo infinito?

Por isso, escrevo-te hoje, e tenho que correr, tenho que te encontrar, porque o tempo não pára e eu preciso saber…

…se eu te pedisse um beijo, achar-me-ias maluca?”


in "Duas Décadas à tua Espera" (excerto I), Sandra Reis