Este blogue é um ponto de encontro com amigos desconhecidos que se reconhecem nas palavras e nos gestos, aqueles por vezes tão comuns que deixamos de reparar, até alguém nos voltar a falar deles, como se fosse a primeira vez.

Música

10 de junho de 2024

Amar como Camões

 Para o meu querido Camões...


RESGATAR TODAS AS HISTÓRIAS DE AMOR


Acredito no amor eterno, no amor que transcende tudo e todos, no amor para além do tempo, no amor verdadeiro. Gostava de o poder acordar no coração de todos porque sinto que se tem perdido algures no tempo.

Será que ainda se ama com sofreguidão, com desespero, com dedicação, com a intensidade dos romances, dos poemas e das histórias de antigamente? 

Amar com a paixão de Camões, amar com o desassossego de Pessoa e às vezes amar com a tristeza de Pessanha, sermos felizes como somos, é assim que a vida tem o seu valor, em lutarmos pelo mais nobre amor, mesmo que tenha que ser a nado, em "sentirmos tudo de todas as maneiras" , em aguentarmos quando os "passos são mais pesados que as pedras da calçada" , em sermos nós próprios, mesmo quando nos sentimos mil pessoas numa só, em sermos capazes de ver até os mais pequenos pormenores, até aqueles que se tornam vulgares no dia-a-dia, em sermos capazes de criar histórias de amor de que nunca ouvimos falar, em sermos capazes de sonhar com Príncipes Encantados mesmo sabendo que não existe nenhum, em voarmos para qualquer lado sem sequer termos asas para voar.

Será que os poetas ainda amam como antigamente, com a dedicação devota, com a cegueira, com cartas de amor, com sonatas e poemas, com a força de um vulcão? 

Haverá ainda Amores de Perdição como o de Simão Botelho por Teresa? Amores platónicos como o de Camões por Leonor?

Amará alguém perdidamente como nos sonetos de Florbela Espanca, com as cores e os aromas de Pascoaes, com o romantismo sofrido de Bocage? Não é por isso que escrevemos poemas? Porque procuramos esse amor que não tem limites no tempo nem no espaço, e a cada verso que o escrevemos, a nossa alma quase que o alcança, quase que o sente por alguns segundos.

Quem me dera poder resgatar todas essas histórias de amor, protegê-las dentro de um frasco de cristal, guardá-las com pétalas santas, da Rainha Santa Isabel, e transformá-las em amores que jamais murchariam com aroma a rosas vermelhas, eternamente belas.

Todas as histórias de amor que a terra viu, dentro do frasco de cristal, seguras, imortalizadas como o amor de Pedro por Inês, beijadas na mão com uma vénia de respeito. E deixá-las libertar a sua fragrância, permitindo que vivam eternamente onde as podemos ver e sentir, ouvir, tão intensamente, como o amor de Romeu e Julieta.

Resgatar todas as histórias de amor e dar-lhes um final feliz, mesmo que tenham vivido de sonhos, de desejos, de tristeza e solidão, como uma Gata Borralheira, mas saberem que um dia vão finalmente encontrar um Príncipe ou uma Cinderela Verdadeiramente (quase) Encantados, que irão lutar por vocês, tal como Bartolomeu Dias contra o Adamastor, e tornarão qualquer cabo das Tormentas em Esperança, e vos irão amar eternamente, aconteça o que acontecer.

S. R. 

13 de fevereiro de 2024

A espera...



À meia noite
A ondulação
É acentuada
A água doce
Torna-se salgada

Brilha cada cristal 
De areia quente,
Sob a lua prateada. 
E cada estrela ardente, 
Sonha acordada. 
 
Chega a espuma
Brilhante, ritmada, 
Cobre a orla
De areia castanha
E deixa-a molhada 

Uma carta
Um jardim
Uma espada

Passam-se séculos
Sem desejar nada
Só o tic tac, a espera,
Para que a alma gémea
Seja de novo encontrada

S.R.