Este blogue é um ponto de encontro com amigos desconhecidos que se reconhecem nas palavras e nos gestos, aqueles por vezes tão comuns que deixamos de reparar, até alguém nos voltar a falar deles, como se fosse a primeira vez.

Música

3 de maio de 2022

Às vezes...

 


Às vezes... 



Às vezes partimos...

porque nos sentimos cansados,

porque nos sentimos confusos ou perdidos.

Às vezes é o tempo que se apaga de nós,

às vezes somos nós que o queremos parar,

ou acelerar...

 

Às vezes fugimos...

porque sentimos que não aguentamos,

e queremos gritar por ajuda,

mas quando tentamos, emudecemos,

e ficamos em silêncio, sentimo-nos sozinhos,

e esquecemo-nos que há sempre alguém,

que nos quer ajudar,

que nos quer estender a mão,

mas nem sempre sabe como,

porque fugimos.

 

Às vezes vamos à procura

do que sentimos que nos falta,

às vezes ficamos mais perdidos,

e demoramos a encontrar-nos...

Às vezes descobrimo-nos,

e ainda somos os mesmos,

outras vezes já não...


Mas a verdade é que quando partimos,

nem sempre vamos embora,

estamos longe, mas não estamos...

 

E às vezes há um dia em que voltamos,

e geralmente voltamos,

voltamos onde éramos felizes,

porque aí,

nesse lugar, que nem sempre é um lugar,

mesmo que o tempo tenha parado ou passado,

sabemos que nos vamos reconhecer,

sabemos como nos encontrar,

e a vida faz sentido

e aos poucos conseguimos levantar-nos.

 

Às vezes temos de estender a mão a quem nos quer ajudar,

às vezes temos que permitir que nos ajudem a levantar,

às vezes temos que aceitar que precisamos do outro,

para voltarmos onde somos felizes,

e continuarmos a estrada da coragem.


Sandra.Reis




24 de maio de 2021

O tempo

 

O tempo nem sempre é uma linha, nem sempre é um círculo, apesar daquilo em que acreditamos e do que nos ensinam a acreditar.
O tempo não volta atrás, e, às vezes, o tempo também não segue em frente. Por vezes, o tempo, simplesmente, pára.
Pára, dentro de nós, e nesse momento podemos sentir que há um vazio, uma dor, um buraco, sofrer é normal, chorar é normal, sentir tristeza é normal.
Podemos ficar sentados algum tempo a ver o mesmo comboio a passar apaticamente, sem o querermos apanhar, porque não estamos prontos para seguir, porque temos medo, porque estamos cansados, porque não queremos tentar.
Mas é nesse momento que temos que procurar dentro de nós a chave-mestra do nosso coração, a força, a coragem, que dão corda e fazem mexer os ponteiros do nosso interior, mesmo que ainda não o quiséssemos fazer.
Porque além de matéria nós também somos espaço e tempo, e não podemos desperdiçar-nos, nós precisamos do tic-tac, precisamos de objectivos, precisamos de acreditar.
E, nesse momento, brota uma força interior, porque nós quisemos e permitimos, e, desta vez, quando o comboio volta a passar, ele pára, mesmo diante de nós, e, entramos.
Aos poucos o som ritmado do comboio, relembra-nos o tic-tac, o tempo, a vida. Quando menos esperamos, o tic-tac transforma-se no pulsar do coração, e, conseguimos sorrir, um pouco.
Seguimos ao ritmo de cada pulsação, destemidos, para onde há sol, para onde há esperança, para onde se criem novas histórias, para além de onde a vontade nos queira levar.
 
S.R.
 

9 de abril de 2021

Os teus lábios

 


Surges assim
Tal Príncipe Encantado
A meio dos meus sonhos
Talvez num Cavalo alado
Por entre nevoeiro
E um nascer do sol dourado


Desces, caminhas para mim
De olhar enfeitiçado
As minhas pernas tremem
O coração acelerado
Cada vez mais perto
Chegas ao meu lado

Percorres os meus braços
Com os teus dedos

Dedilhas uma música 
E afastas os meus medos
Agarras-me pela cintura 
Sussurras-me segredos


Olhas-me nos olhos,
Sem os desviar,
Deixas-me sem fôlego 
Sem força, sem ar.
Entre o sonho e a realidade
Os teus lábios desafiam
O campo magnético,
A física e a gravidade

Rufam os corações
Por tão desejosa tormenta,
O ar quente da tua boca
Tatua-me a cada milímetro
Em câmara lenta

E os teus lábios,

Suaves, quentes, 
Pousam, enfim,
A cada recanto do meu pescoço,
Em cada pedaço de mim


Sugas cada um dos meus lábios
Até que os encaixas nos teus
Invades-me com a língua
E danças com a minha
Dentro dum fogo ardente
Que me desarma de tão quente

Os poros do meu corpo
Arfam de desejo ,
Pelo teu amor,

Pelo teu beijo,
Ansiando a liberdade
De tornar o sonho em realidade.  
 
 
S.R. 

 

27 de fevereiro de 2021

A Lenda do Amor Verdadeiro

"O amor é a força mais subtil do mundo."

Mahatma Gandhi

 

 

Sakura, a Lenda do Amor Verdadeiro

 

A lenda de Sakura nasceu há centenas de anos atrás no Japão. Naquele tempo, eram travadas terríveis batalhas por senhores feudais, onde morriam muitos combatentes humildes, deixando o país coberto de tristeza e devastação. Eram raros os momentos de paz, mal terminava uma guerra, começava outra. Apesar de tudo, ali perto, uma linda floresta mantinha-se intocável pela guerra. Repleta de árvores frondosas, que exalavam delicados perfumes e reconfortavam os atormentados habitantes, nenhum dos exércitos se atrevia a destruir semelhante maravilha da natureza.

No entanto, naquela linda floresta, havia uma árvore que nunca florescia, mesmo cheia de vida nunca nasciam flores nos seus ramos, fazendo-a parecer esguia e seca, como se estivesse morta. Por alguma razão, estava condenada a não desfrutar da cor e do aroma das flores. A árvore permanecia solitária, nem os animais se aproximavam dela com medo de serem contagiados, nem a erva crescia à volta. A solidão era a única companhia que tinha.

Até que um dia, uma fada da floresta ficou comovida ao ver a árvore tão jovem, a parecer tão velha. Então, numa noite, a fada apareceu junto à árvore e, com nobres palavras, disse-lhe que gostaria de a ver bonita e radiante, e que estava disposta a ajudá-la para que isso acontecesse. E, assim, a fada fez-lhe uma proposta. Lançar-lhe um feitiço que duraria 20 anos e, durante esse tempo, a árvore conseguiria sentir o que o coração humano sente. Talvez assim, ela conseguisse emocionar-se e, quem sabe, florescer. A fada acrescentou ainda que a árvore poderia transformar-se, tanto em planta, como em ser humano, indistintamente, quando desejasse. No entanto, se no fim dos 20 anos ela não tivesse conseguido recuperar a vitalidade e o brilho, morreria.

Assim, como a fada disse, a árvore sabendo que se podia transformar em ser humano e voltar a ser árvore quando quisesse, tentou ficar por um grande espaço de tempo como homem, para ver se as emoções humanas a ajudavam a florescer. No entanto, o início foi uma desilusão. Por mais que procurasse, só via ódio e guerra à sua volta. Decidiu então transformar-se em árvore por um tempo. Os meses foram passando, os foram passando... A árvore continuava como sempre e não encontrava nos humanos nada que a livrasse daquele vazio.

No entanto, numa tarde, a árvore decidiu transformar-se em humano, caminhou até à beira dum riacho cristalino e, ali, viu uma linda jovem, Sakura. Impressionado com beleza da rapariga, a árvore transformada em rapaz aproximou-se dela. Sakura foi muito amável com ele. Para corresponder à enorme bondade, ele ajudou-a a carregar a água até à casa dela, que ficava perto dali. Pelo caminho conversaram muito sobre a tristeza da guerra, na qual o Japão se encontrava, e, dos sonhos que ambos tinham.

Quando a rapariga lhe perguntou o nome, ele respondeu “Yohiro”, que significava esperança. Eles acabaram por se tornar muito amigos e encontravam-se todos os dias para conversar, cantar, ler poemas e livros de histórias fantásticas. Quanto mais ele a conhecia, mais vontade sentia de estar ao lado dela e, contava cada minuto para ir ao encontro de Sakura.

Um dia Yohiro não aguentou e confessou o seu amor a Sakura, confessando-lhe também quem ele era na verdade: uma árvore atormentada, que em breve iria morrer porque não tinha conseguido florescer. Sakura ficou muito impressionada e manteve-se em silêncio.

O tempo passou e o tempo do feitiço estava quase a terminar. Yohiro, sentia-se cada vez mais triste sem ela e decidiu voltar à forma de árvore. Numa tarde, quando menos esperava, Sakura apareceu e aproximou-se dele. Abraçou-o e disse-lhe que também o amava. Não queria que ele morresse, nem que nada de mal lhe acontecesse.

Então, a fada apareceu novamente e perguntou a Sakura se queria continuar humana ou se gostaria de se fundir com Yohiro em forma de árvore. Ela olhou à volta, recordando os tristes campos de guerra, escolheu unir-se para sempre com Yohiro. E o milagre aconteceu. Os dois tornaram-se num só. E, a árvore, finalmente, floresceu.

Sakura significava flor de cerejeira, mas Yohiro não sabia disso. Desde aquele dia, há centenas de anos atrás, que o amor de Yohiro e Sakura, perfuma os campos do Japão.

 

“Tudo que sabemos sobre o amor é que o amor é tudo que existe”.

Emily Dickinson

 

 

Estamos a meio deste acontecimento no Japão e não podia deixar de falar nele. Todos os anos entre Janeiro e Abril, florescem as cerejeiras no Japão. Para o povo nipónico a floração é duma magia e beleza impossível de descrever fielmente. É a despedida do inverno frio e pálido e o início da primavera onde todos se reunem para celebrar a amizade e o amor. A floração começa no sul do Japão, em Okinawa, em direção ao norte até Hokkaido. Dura dois meses e “move-se” como uma onda, sendo apelidado de Sakura Zansen, proporciona um dos maiores espetáculos da natureza no arquipélago.

Antigamente, a sakura era considerada símbolo do amor. Quando as mulheres enfeitavam os cabelos com um galho de sakura ou decoravam o quintal com as flores, mostravam que estavam à procura do amor.

Há uma Lenda que conta que uma princesa desceu dos céus e aterrou numa cerejeira, fazendo acreditar que o nome sakura, na verdade, é derivado do nome da princesa Konohana Sakuya Hime, que significa “a princesa das árvores das flores abertas”.

É uma árvore muito apreciada no Japão, em particular, pelos samurais, devido à sua efemeridade. Na Idade Média, período de guerras, a curta duração das flores nos galhos das árvores impressionou os japoneses e fê-los questionar a delicadeza da vida. A sakura acabou por ser associada aos Samurais, guerreiros japoneses, dispostos a dar a vida sempre que necessário, e cuja existência, muitas vezes, era tão breve quanto a flor da cerejeira. Acredita-se que a sakura é a ligação entre o mundo dos vivos e dos mortos; e que a alma dos mortos é absorvida pelas árvores das cerejeiras.

Deixo-vos mais uma Lenda:

 

A Lenda da Cerejeira


Segundo esta lenda, há muitos anos atrás, vivia em Iyo um samurai muito velho; tão velho que já nem família, nem amigos vivos tinha. O único ser ao qual podia ainda dedicar o seu amor, era uma velha cerejeira que os seus antepassados tinham plantado e à sombra da qual o velho samurai tinha brincado quando era criança. A mesma árvore, onde cujos ramos, serviram para pendurar pequenos pedaços de papel, onde, durante gerações, os membros da sua família escreveram belos poemas de louvor à velha árvore.

Mas um dia, para enorme tristeza, a velha cerejeira começou a definhar e morreu. Os vizinhos do samurai vieram plantar uma nova cerejeira, mas para o velho samurai a morte da árvore era um sinal de que a sua vida também estava a chegar ao fim.

Dirigiu-se então, à antiga cerejeira, cujo tronco ainda se erguia altaneiro no meio do jardim e pediu um último desejo: a cerejeira devia florir uma última vez. Se o seu desejo se realizasse, o velho samurai prometia que, esse seria o momento para ele próprio morrer também.

A velha cerejeira voltou a dar flor, embora fosse Inverno, e ali mesmo sob os seus ramos o velho samurai cometeu harakiri. O sangue cobriu o chão e chegou às raízes da velha cerejeira, e, desde esse dia a velha cerejeira, que havia morrido, continua a dar flor todos os anos pelo aniversário da morte do samurai. No sexto dia do primeiro mês do ano, mesmo no coração do Inverno.