Este blogue é um ponto de encontro com a escrita, com os pensamentos, com os sussurros do coração, com a vida. Uma constante necessidade de dar e partilhar as pequenas e as grandes coisas. Este blogue é a reunião de amigos desconhecidos que se reconhecem nas palavras e nos gestos, aqueles por vezes tão comuns que deixamos de reparar, até alguém nos voltar a falar deles, como se fosse a primeira vez.

12 de janeiro de 2019

Um Oceano entre Nós - V - Final

(Escolham uma das músicas em cima à direita no Blogue para acompanhar a leitura. Espero que gostem. Obrigada pelo carinho que me têm dado nestes meses. Não há palavras suficientes que o retribuam <3 )

* Capítulo I  *  Capítulo II  * Capítulo III * Capítulo IV




Depois daquela mensagem que me enviaste por engano, eu percebi que tinha que aceitar que o tempo acabou por te arrancar de mim e não havia nada a fazer senão esperar que, ele também, no meio de tantas voltas, desse uma contravolta. Se aconteceria ou não, não tinha como saber, mas tinha que continuar a viver, tinha que te tirar da minha cabeça, mesmo que nunca te conseguisse tirar do meu coração.

Uns dias depois, encontrámo-nos para entregar as cartas. Eu estava pronta para me ir embora mal cheguei, não queria voltar a sentir todas aquelas emoções, aquela força poderosa que me atraía para ti, mas tu pediste-me para ficar, para falarmos, não consegui dizer-te que não. Descemos até à praia e, embora não gostasses de andar na areia de sapatilhas, deste-me a mão para eu passar as pedras e descemos juntos pela praia deserta. Não estava frio nem sol, era um dia de inverno calmo e claro, mas, mesmo que caisse uma tromba de água naquele instante, não importaria, porque estavas ali comigo.

Conversámos, rimos, paramos a ver o mar, as ondas a desfazerem-se a centímetros dos nossos pés, abraçaste-me mais vezes do que eu esperava, vimos o horizonte juntos, o mesmo que vimos separados de lados opostos tantos anos, e depois de caminharmos pela longa extensão de areia, paramos mais uma vez a olhar para o mar, parei ao teu lado e enquanto via os barcos no horizonte tu beijaste-me a cara levemente, surpreendida olhei para ti. As ondas pareciam ter parado. Se eu tivesse virado a cara um segundo antes, os teus lábios teriam tocado nos meus novamente. Quem me dera tê-lo feito. Abanei a cabeça e ri-me para ti, tu percebeste que isso poderia ter acontecido, sorriste para mim com aquele olhar maroto que tens sempre que fazes algo que não deves, seguraste as minhas mãos, olhaste-me nos olhos e agarraste-me, abraçaste-me, durante tanto tempo, que me pareceu um sonho. Se eu pudesse não sair mais de dentro daquele abraço…

Quando me largaste, estavas sério, e, entregaste-me a carta. No envelope tinhas escrito “Cápsula do Tempo”, que me arrancou um sorriso, mas logo a seguir um aperto no peito, porque não sabia o que me terias escrito. Guardei-a no bolso como se guardasse a coisa mais preciosa que alguma vez me deram, provavelmente era... Talvez ali lesse que um dia me amaste mais do que tudo. Depois daquele momento horrível na estação de comboio, eu não podia esperar outra coisa, senão uma despedida, uma oportunidade que me darias para fazer o meu luto de há 26 anos atrás. Mas seria possível fazer esse luto? Quando nos morre alguém querido, o luto é longo mas sabemos que nada mudará isso… Mas, fazer o luto dum sentimento, quando a pessoa ainda está aqui, à nossa frente, parece-me tão impossível como acreditar que é possível mandar no coração, porque, por mais que a razão nos diga que acabou, o coração vai procurar sempre uma forma de se saciar de esperança…

Entreguei-te a minha carta e concordamos em lê-la nesse mês ainda. Escolheste a data e a hora, e juramos abri-las apenas no dia 23 de Dezembro, às 5h09pm. Não sabia o significado da data, mas disseste que eu iria lembrar-me.

Cada dia que passou com o envelope dentro da minha gaveta, cada minuto que peguei nele e o olhei como se me pudesse dar uma resposta, foi uma prova de força e de resiliência para mim… e com os dias fui ganhando a coragem para mudar o que podia ser mudado. Fui sincera com o meu marido, não podíamos continuar a viver como dois inimigos, não havia razão para isso, tínhamos sido tão amigos antes de namorarmos… Depois de uma longa conversa, percebi que ele estava de acordo comigo. Ouvi-lo admitir que era um espírito livre e que, por mais que gostasse de mim, não conseguia viver amarrado a vida nenhuma, doeu, mas não somos todos iguais. Tínhamos confundido amor com amizade e ficámos presos a um sentimento forçado que nunca existiu, estávamos destinados a ser amigos, grandes amigos, com um filho. Aliviados, percebemos que como amigos éramos os melhores e abraçamo-nos com uma tristeza pela mudança mas ao mesmo tempo o peito estava mais leve. O nosso filho seria mais feliz agora.

Não te contei que me tinha separado durante alguns dias, não me apetecia falar sobre isso com ninguém ainda. Estava quase a chegar o dia, eu continuava sem descobrir a escolha da data. Estava nervosa, não sabia que me terias escrito, só desejava que não escrevesses sobre ela… Tentei tirar-te da cabeça aos poucos, mas o coração agarrava-te, sem piedade de mim.

Era dia 23, faltava um minuto para abrir a tua carta… Quando te escrevi a minha, não sabia que data colocar, falei-te em inventar uma e em não assinarmos a carta, para a podermos manter connosco sem perigo, e depois de muito pensar, não sei bem porquê mas parecia-me bem, escolher o ano em que nascemos, só o ano, o início da nossa vida, a primeira vez que os nossos corações bateram ao mesmo tempo, a primeira vez que respiramos o mesmo ar, a primeira vez que sorrimos, o nosso primeiro acordar. Escrevi três folhas, e resumi o que aconteceu na minha vida e tudo o que fui sentindo por ti, antes de te ter visto, quando cá estiveste e, a cada ano, desde que partiste. Escrevi como te amei, como te tenho amado, como te continuarei a amar para sempre. Pedi-te perdão por não ter lutado por ti, por não ter confiado em ti o suficiente, por não ter apanhado um avião e corrido até ti quando o mundo desabou entre nós. Fomos ingénuos… Pedi que nunca me esquecesses, que se um dia fosses livre lutasses por mim, mesmo que eu tivesse construído uma parede entre nós, que nunca desistisses de mim, porque dentro do gelo, estaria o meu coração a bater por ti, quente.

Tinha chegado o momento, mandaste-me uma mensagem para o telemóvel “Chegou a hora”, eu respondi-te “Vou abrir”. Abri o envelope, tinha três folhas, como a minha, quando vi a data da carta senti um arrepio no corpo todo, um choque, como se tivesse parado de respirar por um segundo, pestanejei, olhei novamente para a data, tinhas escolhido o mesmo ano que eu, o ano em que nascemos… O meu coração começou a bater com mais força. Desde que tinhas voltado que um universo de coincidências recaía sobre nós a toda a hora, esta era mais uma. Li a tua carta com dificuldade, estava tão nervosa, o meu coração batia com tanta força, que sentia o sangue a correr, as pálpebras pareciam vibrar ao ritmo do coração, não conseguia focar, como se existisse uma nuvem à minha frente e as mãos tremiam tanto, encostei-me à parede e respirei fundo, na esperança de me acalmar, li a tua carta como quem procura a água no deserto, procurava ali uma esperança para o meu coração desesperado por ti.

Fiquei sem palavras quando percebi que a tua carta era a carta que eu nunca recebi, aquela que eu devia ter recebido se ninguém te tivesse enviado uma carta falsa a fingir que era eu a terminar tudo contigo, a resposta à última carta que te escrevi eu, estavas a dar continuidade à nossa história… Tínhamos novamente dezassete anos. Contavas-me que estavas a fazer exames para a universidade… falavas tudo o que não me tinhas dito na altura, nos teus pais, nos teus planos, no nosso futuro juntos. Como te lembravas ainda tão bem de tudo o que eu te tinha escrito nas minhas cartas há tantos anos? Será que também as lias todas as noites como eu?

Quando cheguei ao fim da carta, fiquei sem ar, perdi a força nas pernas mesmo encostada à parede e tive que me aninhar para não cair… Ainda não tinha lido tudo mas quando virei para ler a última página vi, em letras enormes “Amo-te”. Tentei acalmar-me porque estavas a escrever no passado e não no presente. Voltei para as linhas, onde estava, para ler até ao fim e na última linha da tua carta tinhas escrito: “Amo-te até ao infinito”. Tive que me sentar no chão, as lágrimas corriam pela minha cara, eu não percebia o que se passava, estarias a tentar dizer-me que ainda me amas, que me amarás eternamente? Não podias escrever isso se soubesses que agora não seria verdade… Não podias… O meu coração agarrou-se àquela frase como se dela dependesse para bater, e eu mantive-me no chão sentada, sem uma palavra para te dizer… Tu também não me disseste nada e assim ficámos, os dois, em silêncio e à distância.

À noite mandaste-me uma mensagem para o telemóvel a perguntar se eu estava bem, que haveria eu de dizer senão que sim? Disseste-me para eu ir à minha caixa do correio que encontraria lá algo. Peguei nas chaves, saí de casa e desci as escadas do prédio a correr, quando cheguei às caixas fiquei parada. Eras tu, tu próprio que ali estavas. Ainda a alguns metros de mim, mostraste-me a tua mão, não tinha aliança, eu levantei a minha também. A sorrir vieste abraçar-me e disseste que não podias esperar mais. Subimos, quando entrámos contámos tudo um ao outro. Éramos livres.

Perguntei-te a razão da data para abrir a carta, e tu sorriste, “5 era o dia, 9 era o mês e 23 era a hora, em que demos o nosso primeiro beijo”. Fiquei sem resposta e pedi-te desculpa por não me ter lembrado… Deste-me a tua mão e disseste-me que tu é que me devias mil desculpas. Por me teres mentido quando disseste que não sentias nada por mim… Por me teres mentido quando disseste que a mensagem no comboio não era para mim, porque era, ias-me ligar, mas impulsivamente escreveste ”Amo-te”, e sabias que se o admitisses estarias novamente a trair alguém, tinhas que ficar livre primeiro para mo dizer olhos nos olhos, e disseste, tal como escreveste na carta: “Amo-te até ao infinito, hei-de amar-te para sempre”. Eu senti a Terra a girar em contramão, parecia um sonho, mas não era, felizmente não era, finalmente estávamos juntos, prontos para continuar o caminho que nos foi cortado, finalmente eras meu e eu era tua, para sempre…

Sem medo, aproximaste-te de mim, eu sorri, não podia acreditar, finalmente davas-me o beijo, aquele beijo com que sonhei estes anos todos, aquele beijo pelo qual chorei tantas noites, aquele beijo que ansiei com a força dum mar bravio que desbrava o mundo se for preciso para tocar na terra, aquele beijo que tinha ficado por dar, quando partiste há vinte e seis anos… “Amo-te, amar-te-ei até ao infinito”



Sandra Reis


21 comentários:

  1. Fico triste por saber que a história chegou ao fim, mas de coração cheio por este final! Há pessoas que ficam na nossa vida para sempre. Há pessoas que estão destinadas a viver de mão dadas até ao fim. Mesmo que os contratempos as distanciem, mesmo que tenham que seguir caminhos oposto, haverá um momento em que se reencontrarão. E, depois, quando as pontas soltas estiverem resolvidas, a entrega não poderá ser outra.
    Absolutamente belo, minha querida *-*

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  2. Adorei, querida. Por momentos, pensei que o final seria outro, mas foi bom ver um final feliz. Quando é para ser tudo se resolve e tudo fica no seu devido lugar, passe o tempo que passar. Eles mereciam, com tanta mentira pelo meio. Muitos parabéns por esta história :)
    Beijinhos

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  3. Uma linda história cheia de contratempos envoltos em mentiras mas que se resolveu com um final feliz pois quando se ama verdadeiramente os obstáculos apenas dificultam mas quando superados a felicidade é imensa
    Parabéns Sandra pela belíssima história
    Beijos

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  4. " Um Oceano entre Nós"
    Parabéns um lindo Romance com um Final Feliz.
    Muito bem escrito li-o com muito entusiasmo.
    Beijinhos

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  5. Fascinante conto!
    Obrigada por nos permitir bons momentos de leitura!

    Gélidos campos...
    Beijo, e uma boa noite.

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  6. E acabou em felicidade e puro romantismo.
    Gostei muito.
    Boa semana

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  7. Uma história muito bem contada que me prendeu do início ao fim. É bom quando há um final feliz…
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  8. Belo, Sandra! Amor que se derrama por todas as palavras, e nos fala ao coração! Boa semana, amiga.

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  9. Querida,
    Estou passando para registrar
    que estou atrasada com minha leitura
    nos blogs
    mas logo acertarei.
    Combinadas?
    Bjins
    CatiahoAlc. do blog Espelhando
    Obs: se desejar conhece meu blog de Frases
    https://frasesemreflexos.blogspot.com/

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  10. Também não me tinha esquecido da mensagem desde o anterior capitulo...
    Mas, a realidade é que mais uma vez estas tuas palavras me absorveram.
    No fundo, tudo está bem quando acaba bem.
    Do futuro, num presente distante saberemos do passado...

    Gostei Sandra!
    Bjs

    Rui
    Olhar D'Ouro - bLoG
    Olhar D'Ouro - fAcEbOOk
    Olhar D'Ouro – yOutUbE * Visitem & subcrevam

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  11. Um conto bem interessante que gostei de ler, e terminou com um final bem feliz.
    Bjs

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  12. Uma história muito bonita, bem estruturada, cheia de emoção, muito bem escrita.
    Adorei.
    Abraço

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  13. Uma história fantástica! Amei!!!
    Beijinho

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  14. Excelente Artigo !! Eu estou adorando visitar blog, sempre tem conteúdo de muita qualidade .... São muitos legais, e interessante ....

    Parabéns !!!!

    Posso compartilhar este artigo no meu Facebook ?


    Meu Blog: Mega Sena

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  15. Li de um fôlego, com o coração nas mãos, receando o final...
    Felizmente teve um fim feliz. Com tanta desgraça acontecendo no mundo, sabe bem ler um final destes, romântico, amoroso e que deixou os protagonistas tão felizes.
    Gostei imenso. O "conto" (é quase um romance...) está muito bem escrito, bem estruturado, com todos os ingredientes necessários para agradar.
    Fico esperando o próximo 😊

    Desejo bom Fim-de-semana, e continuação de bom ano, Sandra.
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

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  16. Belíssimo! Adorei.
    Parabéns por tão bela escrita que sabe tão bem ler.

    Beijinhos.

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  17. Grata pela tua passagem pelo meu blogue e tb pelos votos de bom Ano Novo, que já tinhas deixado, mas antes duas ou três vezes do k nenhuma.

    Já li duas vezes o final desta bela história de amor, de k gostei mto. Descreves os sentimentos, de forma mto real, e felizmente, acabou tudo num beijo, naquele k já deveria ter sido dado há 26 anos. Prendeste a atenção do leitor do princípio ao fim, Então, agora ambos divorciados, é sempre "a abrir" -rs.

    Beijos e bom domingo.

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  18. Uma história magistralmente contada, com realismo mas também com a emoção à flor da pele, uma história que nos prende e seduz! Fiquei absolutamente rendida! Os meus parabéns, tens alma de romancista.
    Muito obrigada pela tua visita ao Barlavento e pelo gentil comentário. E retribuo votos de feliz ano de 2019! Beijinho.

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Obrigada pela visita <3