Este blogue é um ponto de encontro com a escrita, com os pensamentos, com os sussurros do coração, com a vida. Uma constante necessidade de dar e partilhar as pequenas e as grandes coisas. Este blogue é a reunião de amigos desconhecidos que se reconhecem nas palavras e nos gestos, aqueles por vezes tão comuns que deixamos de reparar, até alguém nos voltar a falar deles, como se fosse a primeira vez.

Música

Mostrar mensagens com a etiqueta @ Um Oceano entre Nós. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta @ Um Oceano entre Nós. Mostrar todas as mensagens

12 de janeiro de 2019

Um Oceano entre Nós - V - Final

(Escolham uma das músicas em cima à direita no Blogue para acompanhar a leitura. Espero que gostem. Obrigada pelo carinho que me têm dado nestes meses. Não há palavras suficientes que o retribuam <3 )

* Capítulo I  *  Capítulo II  * Capítulo III * Capítulo IV * Capítulo V *




Depois daquela mensagem que me enviaste por engano, eu percebi que tinha que aceitar que o tempo acabou por te arrancar de mim e não havia nada a fazer senão esperar que, ele também, no meio de tantas voltas, desse uma contravolta. Se aconteceria ou não, não tinha como saber, mas tinha que continuar a viver, tinha que te tirar da minha cabeça, mesmo que nunca te conseguisse tirar do meu coração.

Uns dias depois, encontrámo-nos para entregar as cartas. Eu estava pronta para me ir embora mal cheguei, não queria voltar a sentir todas aquelas emoções, aquela força poderosa que me atraía para ti, mas tu pediste-me para ficar, para falarmos, não consegui dizer-te que não. Descemos até à praia e, embora não gostasses de andar na areia de sapatilhas, deste-me a mão para eu passar as pedras e descemos juntos pela praia deserta. Não estava frio nem sol, era um dia de inverno calmo e claro, mas, mesmo que caisse uma tromba de água naquele instante, não importaria, porque estavas ali comigo.

Conversámos, rimos, paramos a ver o mar, as ondas a desfazerem-se a centímetros dos nossos pés, abraçaste-me mais vezes do que eu esperava, vimos o horizonte juntos, o mesmo que vimos separados de lados opostos tantos anos, e depois de caminharmos pela longa extensão de areia, paramos mais uma vez a olhar para o mar, parei ao teu lado e enquanto via os barcos no horizonte tu beijaste-me a cara levemente, surpreendida olhei para ti. As ondas pareciam ter parado. Se eu tivesse virado a cara um segundo antes, os teus lábios teriam tocado nos meus novamente. Quem me dera tê-lo feito. Abanei a cabeça e ri-me para ti, tu percebeste que isso poderia ter acontecido, sorriste para mim com aquele olhar maroto que tens sempre que fazes algo que não deves, seguraste as minhas mãos, olhaste-me nos olhos e agarraste-me, abraçaste-me, durante tanto tempo, que me pareceu um sonho. Se eu pudesse não sair mais de dentro daquele abraço…

Quando me largaste, estavas sério, e, entregaste-me a carta. No envelope tinhas escrito “Cápsula do Tempo”, que me arrancou um sorriso, mas logo a seguir um aperto no peito, porque não sabia o que me terias escrito. Guardei-a no bolso como se guardasse a coisa mais preciosa que alguma vez me deram, provavelmente era... Talvez ali lesse que um dia me amaste mais do que tudo. Depois daquele momento horrível na estação de comboio, eu não podia esperar outra coisa, senão uma despedida, uma oportunidade que me darias para fazer o meu luto de há 26 anos atrás. Mas seria possível fazer esse luto? Quando nos morre alguém querido, o luto é longo mas sabemos que nada mudará isso… Mas, fazer o luto dum sentimento, quando a pessoa ainda está aqui, à nossa frente, parece-me tão impossível como acreditar que é possível mandar no coração, porque, por mais que a razão nos diga que acabou, o coração vai procurar sempre uma forma de se saciar de esperança…

Entreguei-te a minha carta e concordamos em lê-la nesse mês ainda. Escolheste a data e a hora, e juramos abri-las apenas no dia 23 de Dezembro, às 5h09pm. Não sabia o significado da data, mas disseste que eu iria lembrar-me.

Cada dia que passou com o envelope dentro da minha gaveta, cada minuto que peguei nele e o olhei como se me pudesse dar uma resposta, foi uma prova de força e de resiliência para mim… e com os dias fui ganhando a coragem para mudar o que podia ser mudado. Fui sincera com o meu marido, não podíamos continuar a viver como dois inimigos, não havia razão para isso, tínhamos sido tão amigos antes de namorarmos… Depois de uma longa conversa, percebi que ele estava de acordo comigo. Ouvi-lo admitir que era um espírito livre e que, por mais que gostasse de mim, não conseguia viver amarrado a vida nenhuma, doeu, mas não somos todos iguais. Tínhamos confundido amor com amizade e ficámos presos a um sentimento forçado que nunca existiu, estávamos destinados a ser amigos, grandes amigos, com um filho. Aliviados, percebemos que como amigos éramos os melhores e abraçamo-nos com uma tristeza pela mudança mas ao mesmo tempo o peito estava mais leve. O nosso filho seria mais feliz agora.

Não te contei que me tinha separado durante alguns dias, não me apetecia falar sobre isso com ninguém ainda. Estava quase a chegar o dia, eu continuava sem descobrir a escolha da data. Estava nervosa, não sabia que me terias escrito, só desejava que não escrevesses sobre ela… Tentei tirar-te da cabeça aos poucos, mas o coração agarrava-te, sem piedade de mim.

Era dia 23, faltava um minuto para abrir a tua carta… Quando te escrevi a minha, não sabia que data colocar, falei-te em inventar uma e em não assinarmos a carta, para a podermos manter connosco sem perigo, e depois de muito pensar, não sei bem porquê mas parecia-me bem, escolher o ano em que nascemos, só o ano, o início da nossa vida, a primeira vez que os nossos corações bateram ao mesmo tempo, a primeira vez que respiramos o mesmo ar, a primeira vez que sorrimos, o nosso primeiro acordar. Escrevi três folhas, e resumi o que aconteceu na minha vida e tudo o que fui sentindo por ti, antes de te ter visto, quando cá estiveste e, a cada ano, desde que partiste. Escrevi como te amei, como te tenho amado, como te continuarei a amar para sempre. Pedi-te perdão por não ter lutado por ti, por não ter confiado em ti o suficiente, por não ter apanhado um avião e corrido até ti quando o mundo desabou entre nós. Fomos ingénuos… Pedi que nunca me esquecesses, que se um dia fosses livre lutasses por mim, mesmo que eu tivesse construído uma parede entre nós, que nunca desistisses de mim, porque dentro do gelo, estaria o meu coração a bater por ti, quente.

Tinha chegado o momento, mandaste-me uma mensagem para o telemóvel “Chegou a hora”, eu respondi-te “Vou abrir”. Abri o envelope, tinha três folhas, como a minha, quando vi a data da carta senti um arrepio no corpo todo, um choque, como se tivesse parado de respirar por um segundo, pestanejei, olhei novamente para a data, tinhas escolhido o mesmo ano que eu, o ano em que nascemos… O meu coração começou a bater com mais força. Desde que tinhas voltado que um universo de coincidências recaía sobre nós a toda a hora, esta era mais uma. Li a tua carta com dificuldade, estava tão nervosa, o meu coração batia com tanta força, que sentia o sangue a correr, as pálpebras pareciam vibrar ao ritmo do coração, não conseguia focar, como se existisse uma nuvem à minha frente e as mãos tremiam tanto, encostei-me à parede e respirei fundo, na esperança de me acalmar, li a tua carta como quem procura a água no deserto, procurava ali uma esperança para o meu coração desesperado por ti.

Fiquei sem palavras quando percebi que a tua carta era a carta que eu nunca recebi, aquela que eu devia ter recebido se ninguém te tivesse enviado uma carta falsa a fingir que era eu a terminar tudo contigo, a resposta à última carta que te escrevi eu, estavas a dar continuidade à nossa história… Tínhamos novamente dezassete anos. Contavas-me que estavas a fazer exames para a universidade… falavas tudo o que não me tinhas dito na altura, nos teus pais, nos teus planos, no nosso futuro juntos. Como te lembravas ainda tão bem de tudo o que eu te tinha escrito nas minhas cartas há tantos anos? Será que também as lias todas as noites como eu?

Quando cheguei ao fim da carta, fiquei sem ar, perdi a força nas pernas mesmo encostada à parede e tive que me aninhar para não cair… Ainda não tinha lido tudo mas quando virei para ler a última página vi, em letras enormes “Amo-te”. Tentei acalmar-me porque estavas a escrever no passado e não no presente. Voltei para as linhas, onde estava, para ler até ao fim e na última linha da tua carta tinhas escrito: “Amo-te até ao infinito”. Tive que me sentar no chão, as lágrimas corriam pela minha cara, eu não percebia o que se passava, estarias a tentar dizer-me que ainda me amas, que me amarás eternamente? Não podias escrever isso se soubesses que agora não seria verdade… Não podias… O meu coração agarrou-se àquela frase como se dela dependesse para bater, e eu mantive-me no chão sentada, sem uma palavra para te dizer… Tu também não me disseste nada e assim ficámos, os dois, em silêncio e à distância.

À noite mandaste-me uma mensagem para o telemóvel a perguntar se eu estava bem, que haveria eu de dizer senão que sim? Disseste-me para eu ir à minha caixa do correio que encontraria lá algo. Peguei nas chaves, saí de casa e desci as escadas do prédio a correr, quando cheguei às caixas fiquei parada. Eras tu, tu próprio que ali estavas. Ainda a alguns metros de mim, mostraste-me a tua mão, não tinha aliança, eu levantei a minha também. A sorrir vieste abraçar-me e disseste que não podias esperar mais. Subimos, quando entrámos contámos tudo um ao outro. Éramos livres.

Perguntei-te a razão da data para abrir a carta, e tu sorriste, “5 era o dia, 9 era o mês e 23 era a hora, em que demos o nosso primeiro beijo”. Fiquei sem resposta e pedi-te desculpa por não me ter lembrado… Deste-me a tua mão e disseste-me que tu é que me devias mil desculpas. Por me teres mentido quando disseste que não sentias nada por mim… Por me teres mentido quando disseste que a mensagem no comboio não era para mim, porque era, ias-me ligar, mas impulsivamente escreveste ”Amo-te”, e sabias que se o admitisses estarias novamente a trair alguém, tinhas que ficar livre primeiro para mo dizer olhos nos olhos, e disseste, tal como escreveste na carta: “Amo-te até ao infinito, hei-de amar-te para sempre”. Eu senti a Terra a girar em contramão, parecia um sonho, mas não era, felizmente não era, finalmente estávamos juntos, prontos para continuar o caminho que nos foi cortado, finalmente eras meu e eu era tua, para sempre…

Sem medo, aproximaste-te de mim, eu sorri, não podia acreditar, finalmente davas-me o beijo, aquele beijo com que sonhei estes anos todos, aquele beijo pelo qual chorei tantas noites, aquele beijo que ansiei com a força dum mar bravio que desbrava o mundo se for preciso para tocar na terra, aquele beijo que tinha ficado por dar, quando partiste há vinte e seis anos… “Amo-te, amar-te-ei até ao infinito”



Sandra Reis


30 de novembro de 2018

Um Oceano entre Nós - IV

* Capítulo I  *  Capítulo II  * Capítulo III * Capítulo IV * Capítulo V *







O tempo não pára, não recua. Às vezes acreditamos que conseguimos fazê-lo voltar atrás,
 mas, rapidamente, percebemos que o ponteiro seguiu em frente, nós é que não.


Finalmente tinham passado os dois dias mais longos do mundo. Eu estava na estação de São Bento à tua espera, já não me lembrava de quando lá tinha entrado a última vez, mas tudo parecia intacto, os sons, os cheiros, as imagens, tudo, os anos não tinham passado ali dentro, era como uma máquina do tempo com comboios a partir e a chegar. Seria tão bom se os comboios nos pudessem levar para momentos em vez de lugares…

Vi o teu comboio a surgir do túnel, quando me viste sorriste e vieste abraçar-me. Olhei para ti à procura dum sinal teu, dum sentimento, era difícil decifrar os teus olhos, não sabia o que sentias, se ainda era possível sentires tudo o que sentiste por mim na adolescência. Mas havia tanto para falar depois da última conversa.

Seguimos até ao átrio da estação, paraste a apreciar os painéis de azulejos nas paredes, nunca os tinhas visto. Estavam ali desde 1905, o mesmo ano em que Einstein publicou a Teoria da Relatividade, e eu que já tinha passado ali tantas vezes, percebi que nunca tinha parado para olhar para eles, vê-los bem, como se fosse a primeira vez. Tantas histórias naquelas paredes...

Puxaste-me o braço a rir. Descemos as escadas da estação de São Bento a correr às gargalhadas, nem sequer percebi porquê, mas tu rias e eu ria. Seguimos pela Rua das Flores, o meu coração estava mais leve, muito mais leve desde aquele Adoro-te. Mostrei-te alguns pormenores das casas mais antigas, falei-te do Porto, do Hard Club ao passar por ele, levei-te ao Palácio da Bolsa, ficaste encantado com os salões, disseste que no teu país não vias coisas assim, belas pelo luxo, encontravas mais beleza na natureza e na paz, contudo percebi no teu olhar mal entrámos no salão árabe, que ficaste encantado. Quando saímos, descemos até à Igreja Monumento de São Francisco, não entrámos, debruçámo-nos apenas nas varandas a apreciarmos a vista delicada e ancestral do rio Douro, era linda, e foi preciso levar-te lá para eu ter uns momentos para a apreciar também. Descemos os degraus até às ruas estreitas da Ribeira e seguimos o traçado ondulado até ao rio. As ruas tinham muita vida, música, sons, mesas, cheiros, gatos e muitas pessoas, algumas apressadas, outras não, turistas na maior parte. Tirámos algumas fotos e atravessámos a Ponte D. Luís I para veres a ribeira duma perspectiva diferente. Na ponte, paraste a ver os rapazes em calções, em pleno Outono, prontos para mergulhar no rio Douro, por apenas algumas moedas.

Desta vez, puxei-te eu, até ao outro lado da ponte, até ao Cais de Gaia. Sentia-me contente, tão contente, mas parecia que estava a sonhar, ainda não parecia verdade, tu estavas ali, ao meu lado, e estávamos sozinhos na rua pela primeira vez. Nunca tínhamos tido esta oportunidade, de passear só os dois, havia sempre alguém conhecido por perto.

Almoçámos ali mesmo e depois do almoço, sentámo-nos à beira-rio, junto dos barcos Rabelos. À nossa frente o Porto, a ribeira, com as cores e a vida, que davam alma àquele cenário que nos aconchegava o coração como um dia de Natal. Ao meu lado, sem olhares para mim, agarraste-me a mão, como fazias há vinte e seis anos e ficaste calado. Desta vez, eu não chorava, estava calma, e consegui sentir a tua mão a agarrar a minha, como se fossem uma só, a mesma sensação, exactamente a mesma, de há quase três décadas atrás. Todos estes anos agarrei a minha própria mão e fingi que eras tu nos momentos mais difíceis, quando tinha medo, quando me sentia sozinha, e agora, finalmente era a tua mão que segurava de novo a minha.

Duas gaivotas pousaram perto de nós e tu riste-te. Olhaste para mim e disseste que não tinha mudado nada nas nossas mãos, que te parecia que o tempo não tinha passado, que não te sentias tão bem em lado nenhum como ao pé de mim. Sentias o mesmo que eu, como se nunca tivéssemos deixado de falar nestes anos todos, nem por um minuto. Eu sorri, afastando um pouco a minha cara da tua, a proximidade física contigo funcionava como um íman para mim. Agarraste-me as duas mãos com as tuas e olhaste-me nos olhos, o meu coração palpitou ao ver a profundidade dos teus olhos nos meus, era como um feitiço, eu estava enfeitiçada. Com as minhas mãos dentro das tuas, disseste-me, duma forma meiga e, sem tirar os olhos dos meus, sem pestanejares, que eu tinha sido o teu primeiro amor, que tinhas sofrido muito quando recebeste aquela carta, mas que não tinhas querido mais ninguém durante muitos, muitos, anos, para eu nunca duvidar que ainda me adoravas, demais, e me querias muito, mesmo muito.

Eu fiquei calada, não conseguia falar, não de sentimentos, sempre fui assim, falava de tudo, mas de sentimentos era tão difícil, mantive os meus olhos nos teus apenas acenando com a cabeça.

Mas, veio um mas, senti-me gelada de repente, eu ainda nem tinha dito nada, e tu já estavas a dizer “Mas”… O meu peito comprimiu-se, o meu ar não saía, e tu começaste a contar as tuas histórias, com vergonha, os teus erros, aqueles que juraste não repetir mais. Contaste-me que traiste a tua primeira mulher com muitas mulheres, que talvez me procurasses inconscientemente nelas, não sabias, mas que me mantiveras sempre na tua vida como uma luz, a minha foto sempre contigo, as nossas músicas, mas, não havia desculpa para isso, e, depois de te teres divorciado fizeste uma promessa, que não podias falhar, não podias trair uma mulher novamente.

Como um calor que vem de trás e me espeta gelado como uma faca, eu percebi o que me querias dizer, eu não era a tua mulher, era ela, aquela com quem tinhas acabado de casar antes de voltar, era a ela que tinhas que ser fiel. Ou querias que eu esperasse por ti? Não sei sequer porque pensaste que eu precisava de saber isso, acharias tu que eu trairia o meu marido? Acontecesse o que acontecesse, nunca o faria, mesmo sem ter feito promessas, claro que nunca o faria. Mas porque me falavas nisso, porque te justificavas a mim? A quem ou como terias feito a promessa para ser impossível de quebrar, até por mim…

Retirei as minhas mãos das tuas, não podia esconder o que sentia, a minha cara estava ruborizada e os meus olhos estavam brilhantes, eu não percebia o que se estava a passar, o que ía acontecer, mas não podia ficar só a pensar… Ganhei coragem e perguntei-te o que sentias por mim. Ficaste calado uns segundos a olhar para mim, como se pensasses muito bem em cada uma das tuas palavras antes de as dizeres, e quando ouvi a tua resposta, que não era possível ressuscitar os teus sentimentos por mim, eu não sabia se podia, se devia acreditar, porque o que eu lia nos teus olhos era o contrário do que me diziam os teus lábios.

Porque estava eu a sentir tudo aquilo e tu não? Não era possível ressuscitar os teus sentimentos? Seria verdade? Eu preferia acreditar que estavas a mentir para não falhares a tua promessa, era mais fácil acreditar que também me amavas mas não mo podias dizer porque eu era casada e tu também. Fiquei um bocado a olhar para o outro lado do rio, sem ver, sem ouvir nada, a não ser os meus pensamentos, disseste que não era possível ressuscitar os teus sentimentos, mas também disseste que me adoravas demais, se me adoravas tinhas que ter sentimentos, menos fortes mas tinhas que os ter. Tu mudaste, eu também mudei, mas o amor verdadeiro nunca muda, não precisa de ser ressuscitado, porque ele nunca morre, fica apenas adormecido no coração, como uma bela adormecida à espera do beijo, e tu fechaste o teu coração por isso não o podes sentir, mas não morre, apenas adormece, eu sei, porque assim que te vi, o meu acordou.

Eu ainda estava perdida nos meus pensamentos quando recomeçaste a falar, e me disseste “Eu adoro-te, muito, és especial, mas… a minha prioridade é trazer a minha família para cá, tirá-los da guerra e da fome, e tu és indispensável para mim, para te ajudar”

Naquele segundo eu podia ter dito que te amo, mesmo sem forças, mas eu sabia que isso não ia mudar nada… Tu abraçaste-me, e as lágrimas caíram-me pela cara abaixo, pelos sentimentos que saíam por entre os buracos do meu coração, tu apertaste-me com mais força, senti o teu coração acelerado e só quis fugir, fugir dali, fugir de ti, fugir do Mundo, esconder-me onde não houvesse nada nem ninguém, e deixar-me adormecer na minha tristeza simplesmente…

Quando me acalmei, afastei-me de ti, e senti o meu coração a fechar-se como uma porta enferrujada, sem força, a tentar proteger o pouco que sobrava.

Quando caminhávamos para a estação sentia-me fria por dentro e por fora, tu olhaste para mim e disseste: “Não me quero chatear contigo… Sinto-te longe… Estamos a centímetros de distância fisicamente e emocionalmente temos o Atlântico entre nós, novamente…”

Aquela frase deixou-me desesperada, saberias tu que eu te amo, saberias o que sinto por dentro, saberias ou não quererias saber?… No meu desespero pedi-te “Escreve-me uma carta, uma última carta, eu também te escrevo, mas não pode ser uma carta de despedida, por favor, tem que ser uma carta em que dizemos um ao outro o que nunca pudemos dizer, o que não podemos dizer agora… Não escrevemos nomes, nem datas, e só as abrimos daqui a vinte e seis anos. Para não ficarem coisas por dizer, caso não as possamos dizer agora, assim saberemos que quando partirmos as deixamos ficar aqui para o outro as saber…”

Tu olhaste para mim e disseste: “Tanto tempo? Não pode ser antes? Não quero esperar mais vinte e seis anos…” Paraste na rua íngreme que subia a olhar para mim e eu acedi que sim, mas disse-te “Podes abrir a minha, mas eu só abrirei a tua quando tu me disseres que posso”

Tu disseste que sim. Eu sentia que se não fosse assim tu não falarias. Eu podia dizer-te tudo o que não consegui dizer agora, era pelo menos um peso que sairia de dentro do meu peito. Agarraste-me a mão com força, apertaste-a como se me quisesses passar uma mensagem cheia de adrenalina e, depois, largaste-a devagar, olhando-me nos olhos.

O caminho de volta até à estação foi sempre a subir, com a pulsação a subir, do esforço e da tristeza. Chegámos à estação, para ires embora. Abraçaste-me demoradamente, senti novamente o teu coração acelerado e o teu ar quente no meu pescoço, queria beijar-te mas não podia, sentia o teu corpo a responder ao meu duma forma tão inesperada, tão forte que me senti dominada pela vontade de beijar os teus lábios, as nossas bocas estavam cada vez mais próximas e tu não te afastaste de mim, a tua respiração acelerava e a minha impedia-me de controlar os meus batimentos cardíacos, de tal forma que me sentia sufocar, pela vontade de te beijar, pela impossibilidade de o fazer… Afastámo-nos um do outro devagar, olhaste para mim, beijaste-me a face e entraste no comboio.

Acenaste da janela sentado. Uns segundos depois recebi uma mensagem tua no telemóvel, escrita na tua língua dizias “Já te ligo. Amo-te”, olhei para ti confusa, da janela do comboio encolheste os ombros e enviaste-me outra mensagem “Desculpa, foi erro, não era para ti…” O comboio arrancou, eu fiquei sem ar, sem chão, sem nada, ao ver-te desaparecer no túnel da estação, de São Bento. O meu ar não saía, o meu coração parecia que ía rasgar o peito tal era a intensidade com que se debatia nele.

Podia ter sido um dia perfeito… Eu presa, no centro duma porta aberta, dum lado o passado, do outro o presente, até a realidade me ter tocado, primeiro ao de leve, depois, com a força duma rajada de vento na porta, duma mansão vazia, do meu coração, vazio…

Saí da estação. Gostava de ter a capacidade de olhar para tudo como se fosse a primeira vez. Lembro-me de sair de mão dada com a minha mãe naquela estação, do  jardim nos Aliados, onde corri muitas vezes no meio das flores, das lojas com cheiro a café e amendoins torrados, com armários em madeira creme ou verde claro, cheias de portinhas e compartimentos, os frascos de vidro, os sacos de rafia no chão cheios de feijões onde eu enterrava as mãos, lembro-me da Rua de Santa Catarina, do café estreitinho onde a minha mãe me comprava o bolo de arroz, lembro-me de descer a rua 31 de Janeiro até São Bento, a Torre dos Clérigos no meu horizonte, descer aquela rua era um momento especial, uma montanha russa sem cintos nem travões, lembro-me do Porto que eu via com olhos de criança, mas tudo muda com o tempo, principalmente nós próprios, não há como revertê-lo, ele avança e ficam apenas as memórias.

A minha porta tinha-se fechado e atirei a chave para o fundo do oceano, jamais poderia ser recuperada, os meus sentimentos ficarão assim intactos para sempre num sítio distante onde não poderei mais chegar… É melhor para mim, para todos. Agora só me restava escrever-te uma última vez e esperar pela tua carta, a nossa última carta.



Sandra Reis

16 de novembro de 2018

Um Oceano entre Nós - III

* Capítulo I  *  Capítulo II  * Capítulo III * Capítulo IV * Capítulo V *


“Como pode ser tão doloroso ter-te finalmente perto de mim?
Estavas a milhares de quilómetros, um oceano entre nós, e não me sentia assim,
como se uma bola de ar estivesse a encher o meu peito
e a qualquer momento pudesse rebentar dentro de mim.”

Naquele dia no aeroporto, por momentos eu senti-me feliz, tu estavas ali à minha frente, finalmente podia voltar a ver o teu sorriso, o brilho dos teus olhos escuros, estava tão feliz, não havia mais nada entre nós, nem o tempo, nem a distância, nem o ar. Mas a realidade é como o acordar dum sonho e não há como lhe fugir. Quando seguíamos para o elevador do aeroporto, calados, atrás de todos, vi nos teus olhos que me querias falar, e li a correr o que tinhas escrito para mim no teu olhar, também queria dizer-te tudo, tudo, naquele silêncio, mesmo sem palavras, mas não consegui, não permiti que me lesses. Cada vez que olhavas para mim de forma demorada, os meus olhos fugiam de ti, pois temia que o meu cérebro me enganasse e me fizesse esquecer que já não estávamos juntos, temia o meu próprio impulso de me julgar ainda tua, o meu desejo tão forte de te agarrar sem largar mais, de te beijar sem parar. Senti-me amarrada, por fora e por dentro, tão desesperada e tão sozinha.

Juntámos-nos aos outros no elevador. Descemos com as gargalhadas felizes de todos, eu sorria, tu sorrias, mas havia um silêncio dentro de mim, fora de mim, à nossa volta, como se os ouvisse longe, como se eu e tu estivéssemos sozinhos dentro de uma bolha invisível e os outros num mundo paralelo.

Saímos do elevador e seguimos para os carros, continuávamos a sorrir, mas ao mesmo tempo sentia-me tão confusa, tão triste, não queria que fosses, não te queria deixar ir, mesmo que a distância agora fosse curta, mesmo assim, continuava cheia de saudades.

Entrámos em carros diferentes e, naquele curto instante, senti um golpe no peito, ainda mal tinhas chegado já te via a partir, embora perto, inalcançável para mim. Foste para casa dum primo, e eu voltei para a Biblioteca, para o trabalho, com aquele aperto no peito, a cabeça tão longe. Durante uns minutos refugiei-me entre os corredores de livros, tentei respirar, tentei ficar calma, à minha frente, nas prateleiras só via centenas de barras de cores diferentes com letras baças, eu não podia chorar, ali... Sequei as lágrimas e fui trabalhar com o coração a rebentar dentro do peito.

***

Até hoje. Passaram 72h, três dias, desde que tiveste os pés a centímetros e os olhos a milímetros dos meus, desde que me abraçaste finalmente. Hoje, depois de alguns obstáculos que o destino nos pregou durante estes três dias, vieste a minha casa. Almoçaste comigo, com o meu marido e conheceste o meu filho. Pudemos conversar, rir, contar, ouvir e pensar juntos. Mas ele estava ali, a olhar para nós, a falar, a ouvir, a pensar também. Eu podia dizer que ele não merecia o que eu estava a sentir por ti, mas no fundo da minha alma, eu sentia que sim, por cada lágrima que me fez chorar, por cada insulto que me fez silenciar, por cada marca que me deixou no corpo e na alma. Eu não conseguia sentir remorsos.

Ao fim da tarde fui-te levar a casa do meu primo. Pediste-me um abraço antes de entrarmos no carro, eu fui a correr para to dar, apertaste-me com força e começaste a dançar comigo ali mesmo na garagem. Rimo-nos e entrámos no carro. Seguimos até ao destino mas enquanto conduzia sentia que era o momento, podia não haver outro, tínhamos que falar, então fiz um desvio e parei, tu olhaste para mim e riste-te, porque percebeste porque estávamos ali. Na mesma praia onde tínhamos passado a maior parte das noites no Verão há vinte e seis anos. Saímos do carro e caminhámos até à areia, o pôr-do-sol era quase tão forte como o que eu sentia naquele momento. Queria dizer-te, mas não conseguia. Sentámo-nos apenas na areia a ver o Sol a desaparecer no horizonte, o mesmo horizonte onde, há muitos anos atrás, eu via montanhas e imaginava-te nelas, do outro lado do oceano.

Finalmente a coragem subiu pelo meu corpo como um arrepio eléctrico e perguntei-te porque paraste de me escrever, porque não foste capaz de me dizer que tinhas encontrado outra pessoa, porque não me deste o direito da despedida, de fazer o luto deste sentimento. Os teus olhos fixaram-me interrogativos, abanaste a cabeça, parecias incrédulo. Quando me respondeste, fiquei sem palavras, quando me disseste que nunca tiveste mais ninguém, que eu é que te magoei com a minha última carta, onde te escrevi que me sentia sozinha, que tinha encontrado outra pessoa, uma que podia estar comigo todos os dias, que me dava todo o amor que eu precisava… Não podia acreditar no que dizias, estaria eu maluca? Continuaste a falar, a contar que sofreste durante mais de cinco anos, sozinho, que te fechaste para o mundo, não dormias uma noite seguida, e sonhavas sempre comigo, não conseguias respirar sem mim, tiveste que andar num terapeuta para te ajudar… Que foi por isso que não me escreveste mais, porque eu te destruí com aquela carta…

Naquele instante o Mundo girou ao contrário, sentia-me uma árvore a quem arrancaram as raízes da terra, uma pedra minúscula, insignificante, que chutaram para o mar, para longe de qualquer possibilidade de voltar onde estava um dia. Tentei pensar, pensei, ele olhava-me nos olhos, eu olhava nos dele, mas como me podia lembrar de algo que eu não tinha feito? Não tinha, nada daquilo tinha acontecido, nunca escrevi uma carta assim, nunca o faria, nunca quis saber de mais ninguém durante anos. E, como a incidência da luz dum farol nos meus olhos, eu percebi, e tudo fez sentido.

Naquela altura, quando contei aos meus pais eles disseram que não podíamos ficar juntos, que era errado, mas nós não nos podíamos resignar e contrariamos tudo e todos, lutamos pelo nosso amor a milhares de quilómetros de distância numa batalha em que não tínhamos aliados, a não ser um ao outro.

Os meus pais acabaram por se calar meses depois, mas foram outros familiares, chegados, a quem não contámos nada sobre nós, foram esses mesmos familiares que me disseram que tinhas uma namorada, que chegaram a levar as minhas cartas fechadas ao correio para ti, quando estive doente, foram esses mesmos que nos enganaram aos dois, que nos separaram sem piedade, sem coração…

Afinal havia uma razão para teres deixado de me escrever, e não era uma mulher, afinal alguém te escreveu a minha última carta, e não fui eu… Perguntei-te se te lembravas da letra da carta, disseste que quando a leste não viste mais nada, rasgaste a carta e fechaste-te no quarto a chorar, enquanto o teu irmão te implorava que abrisses a porta… Senti mais um punhal no meu coração, como se pode rasgar um coração que já está todo esfarrapado?... Eu amava-te, tu amavas-me e agora, estamos separados…

Depois da revolta, a realidade apoderou-se de mim. Não podia acreditar que estava tudo perdido entre nós por causa de outra pessoa, como pudemos acreditar, porque não falamos mais um com outro? Porque não te liguei, não te escrevi mais, porque pensei simplesmente que me tinhas deixado por outra, só porque mo disseram?... Perdi-te por algo que podia ter sido evitado.

Querias chorar, os teus olhos brilhavam, mas havia tanto sofrimento escrito neles que não verteste uma lágrima… O desespero que sentia no peito, aquele desespero que se sente quando giramos os ponteiros do relógio para trás, mas o tempo não recua nem um milésimo de segundo, essa impotência fez-me chorar. Agarraste-me a mão, abraçaste-me e ficámos assim, perdidos, num abraço de perdão com mais de vinte anos de atraso.

Tudo acabava de mudar entre nós, nem eu te tinha deixado, nem tu me tinhas deixado, afinal nenhum de nós tinha deixado de amar o outro, apenas fomos obrigados a fazê-lo, a esquecermo-nos para sobrevivermos.

Eu agora sabia que o meu amor não tinha acabado, assim que te vi, percebi e senti-o de novo a arder dentro de mim, mais forte do que antes, mas tu tinhas acabado de casar há meses, e eu sentia-me a pior mulher do mundo por não querer saber disso, por só te querer de volta, fosse como fosse…

Estávamos ainda envolvidos num abraço, as minhas lágrimas já tinham secado no calor da tua pele, sentia os teus lábios no meu pescoço, o teu ar quente, só me apetecia beijar-te, o teu coração estava acelerado, o meu também, desceste um pouco com a tua boca no meu ombro e largaste-me de repente, pediste-me para irmos embora. Disseste que tínhamos que pensar. Concordei contigo e fui-te levar, para casa dos familiares, onde estavas agora a morar, os mesmos que um dia nos separaram, os mesmos que pensámos até hoje que não sabiam nada sobre nós, fui-te levar para casa do inimigo. O inimigo que te estava a ajudar a reconstruir a tua vida no meu País e, por isso, mais uma vez, tínhamos que ficar calados… Estaria ainda esse amor dentro do teu peito? Seria possível resgatá-lo, acordá-lo?

Teria que esperar dois dias para te ver de novo, parecia uma eternidade… Beijaste-me no rosto ao sair do carro, já sentia saudades tuas. Mas mal desapareceste, enviaste-me uma mensagem a dizer: “Adoro-te”, que me fez sorrir e aliviar o coração. Estava ansiosa pelo nosso próximo encontro.


(Continua…)

7 de novembro de 2018

Um Oceano entre nós - II


* Capítulo I  *  Capítulo II  * Capítulo III * Capítulo IV * Capítulo V *



Já tinham passado vinte minutos, e, enquanto desesperava, as memórias invadiam-me como o trailer dum filme no ecrã do aeroporto...
...

Lembro-me da minha avó falar de ti quando eu era pequenina, de me mostrar fotos tuas. Lembro-me das cartas que o teu pai enviava, em envelopes azuis com o desenho dum avião, lembro-me até da letra dele e do cheiro do papel, como era fino e fazia barulho. Tínhamos nove anos quando trocámos a primeira carta, escrevíamos sobre nós, os nossos países, os desenhos animados que víamos, os filmes, as músicas... Trocávamos pequenos pedaços da nossa identidade, fotos, selos, moedas, cromos, desenhos.

Três anos depois, começaste a escrever na minha língua e eu tentei fazer o mesmo e escrevia na tua. Nessa altura já percebia que éramos da mesma família, filho dum tio que eu nunca tinha visto, e estávamos separados por um enorme oceano. Lembro-me de olhar para o horizonte ao fundo no mar e pensar que estarias ali, naquelas linhas do horizonte mais escuras, que parecem montanhas ao anoitecer.

Quando fizemos dezassete anos, os teus pais vieram cá, tu atravessaste o oceano pela primeira vez. E surgiste, neste mesmo aeroporto, na minha vida, pela primeira vez. Todos abraçaram o teu pai com lágrimas, vi o meu pai chorar. Alguém te chamou para me conheceres e eu a ti. Já trocávamos cartas há oito anos, éramos amigos e eu queria conhecer-te, claro, mas, quando te vi ali, não senti que eras meu primo, não, os meus primos estavam todos ao meu lado, e, apesar de seres como um amigo à distância, naquele instante, eras um desconhecido para mim. Não me parecia possível sentir o mesmo amor por ti que sentia pelos meus primos que cresceram comigo todos os dias da minha vida.

Não demoraram muitos dias até perceber que me tinha enganado. Nesse Verão, saímos todos os dias e quase todas as noites, com os meus primos (os nossos primos)… mostrei-te a minha cidade, a praia, o mar, o comboio, que nunca tinhas visto, vimos as estrelas, molhámos os pés no mar ao luar, ficámos tão chegados, em tão pouco tempo, como se escrevessemos há centenas de vidas atrás.

Os teus pais dormiam no meu quarto e nós dormíamos na sala, tu no chão e eu no sofá, todas as noites, durante quase noventa dias, víamos filmes até tarde enquanto os nossos pais dormiam, conversávamos até de madrugada, contávamos segredos, riamos tanto… Numa dessas noites, tu percebeste o meu olhar assustado e eu falei-te dos meus pesadelos, do medo de dormir, e a partir dessa noite, em todas as noites, deste-me a tua mão para eu dormir. Lembro-me de acordar a meio da noite com a mão adormecida e de a tirar devagarinho da tua para não te acordar. Contigo, voltei a sentir-me segura.

Perto da tua partida, foste uma semana para Coimbra, com os teus pais e uns tios e primos. Eu senti a tua falta, uma noite tu ligaste-me duma cabine, até ficares sem moedas, tinhas saudades minhas, acho que ambos percebemos que algo de estranho se passava. Dois dias depois recebi uma carta de Coimbra, tua (que ainda guardo), escreveste que sentias algo dentro de ti que nunca tinhas sentido antes, que não conseguias explicar, disseste-me que me adoravas, que sentias saudades minhas e estavas ansioso por voltar.

Quando voltaste para minha casa, depois daquela simples semana separados, quando te vi foi como se a luz voltasse à minha vida, abraçaste-me com tanta força que fiquei sem ar, sentia o teu coração acelerado, o teu lábio tremia a sorrir, e em pouco tempo percebemos, que as nossas vidas se cruzavam duma forma que não esperávamos, com tamanha impetuosidade que jamais conseguiríamos escapar.
Quando os teus olhos caíam sobre os meus, eu sentia um arrepio a subir o meu corpo todo, como se fosses um relâmpago dentro de mim. Tínhamos apenas 17 anos e dois corações tão crédulos, ainda a florescer, a descobrir os sentimentos, que de uma forma inexplicável se atraíram como duas forças magnéticas poderosas e se apaixonaram perdidamente.

Numa noite, quando todos dormiam, levantei-me para ir à cozinha beber água, quando voltava para a sala, tu estavas ali no corredor, com o teu olhar que parecia entrar dentro de mim, fazer o meu coração explodir e o meu corpo derreter, esticaste os teus braços, agarraste-me com força e deste-me um beijo longo. Um beijo que jamais viria a esquecer, o primeiro e o último beijo que me deste.
Fiquei tão nervosa, tão assustada, como se fosse um crime amar-te… Mas não eras meu primo, não, para nós não, não o sentíamos, éramos amigos há anos que nunca se tinham aproximado até esse ano.
E poucos dias depois, sem termos conseguido falar sobre o que sentíamos, voltamos a ser separados de forma abrupta pela vida, e nunca mais nos voltámos a ver… Foste para outra cidade, outro país, outro continente, ficamos separados pelo oceano, novamente…

Voltámos a trocar cartas, desta vez longas como livros, como romances cheios de páginas, mandavas-me flores, postais, poemas, cassetes a tocar guitarra para mim. Isto iria acontecer de qualquer forma, mesmo que nunca tivéssemos escrito uma carta um ao outro antes, porque havia uma força magnética poderosa entre nós, sempre que estávamos juntos ou afastados, uma força puxava-nos um para o outro contra as nossas próprias capacidades… E, um ano mais tarde um mar tenebroso inundou a minha vida, proibiram-me de te amar, como se isso fosse possível, e tu, deixaste de me escrever…
As músicas que eu ouvia quando partiste, que ouvi nesses anos repetidamente, guardei-as numa gaveta e nunca mais me permiti ouvi-las, não…, porque me apertavam demais o peito, porque ficava angustiada e desesperada, porque tinha que encarar a realidade que nunca mais te voltaria a ver, que nunca mais estaríamos juntos, que nunca mais me voltarias a abraçar e que o beijo que partilhamos naquela noite de Setembro, seria o último beijo que eu teria teu…

Durante anos olhei para a Lua como me dizias para fazer, na esperança de que conseguíssemos ouvir-nos um ao outro, mas nem as nossas luas coincidiam no Céu… Durante anos eu juntei as minhas mãos e fingia que me davas a mão enquanto adormecia… Durante anos usei o colar que me enviaste com as nossas iniciais... Ainda guardo as pequenas flores violetas que me enviaste… Li as tuas cartas durante meses e adormeci agarrada a elas… Durante todos estes anos, mantive-te sempre perto de mim, nos meus pensamentos, nos meus sonhos, nos meus desejos, guardei a tua foto sempre comigo. Afugentaste todos os meus pesadelos, todos os meus fantasmas. Eu não tinha conseguido passar um dia sem pensar em ti… Tinhas que voltar...
...

Da porta, vejo-te de súbito a chegar, os meus olhos demoram a focar tal é o impacto, e assim que vejo bem o teu rosto, tudo à minha volta pára, não ouço mais nada, não vejo mais nada, só a ti, não sei se vou aguentar… O meu coração nunca bateu com tanta força, parece que me vai rasgar o peito… Há emoções a mais dentro de mim. Sinto que me empurram o coração para fora do peito, que mo apertam, que me sufocam… 

(Eu estava bem, eu pensava que estava bem, porque sou tão boa a fingir, a esconder, a enganar-me quando posso sofrer, e fiz isso tão bem, durante estes anos todos mal pensei em nós, estava tudo na gaveta, as cartas, as cassetes, os teus poemas, as músicas que me escreveste, as fotos, os meus sentimentos… Agora, não sou livre como quando tinha 17 anos e te amava perdidamente… Agora tenho uma família, embora imperfeita, não merecem sofrer. Ninguém merece… E tu, tu também tens… Eu ficarei bem, acho que sim, e para já tudo o que desejo é poder abraçar-te finalmente, poder dar-te o abraço que ficou por dar quando entraste naquele avião há vinte e seis anos, poder cobrar a tua promessa, e receber o abraço mais longo do mundo…)

Tu aproximaste-te de todos, abraçaste um a um e deixaste-me para o fim, olhaste para mim, e abriste os braços, apertaste-me com força, durante mais de um minuto ficámos assim, abraçados, e no momento que me voltaste a largar, vi-te tremer, vi-te triste e senti o peso da realidade. Nesse momento, de trás de mim, o meu marido, esticava-te a mão para te cumprimentar, apresentando-se. Foi quando percebi, no mesmo instante em que tu apareceste, ele tornou-se um estranho para mim. Como se eu fosse tua e ele um intruso a observar-nos.

Já viajei no tempo algumas vezes mas desta vez não é igual. Desta vez sinto os pés e a cabeça no presente, mas o coração viajou sozinho vinte e seis anos. Sinto um peso a esmagar-me o peito. Como se estivesse a fazer um luto de alguém que perdi há décadas atrás. Quero chorar e não consigo… Como se durante estes anos eu guardasse isto no fundo do meu peito e de repente ele abrisse sem eu querer. Não sei o sentir, o que fazer, apetece-me chorar, apetece-me sorrir, apetece-me abraçar-te e não te deixar mais partir…

Não sei o que vai acontecer a seguir, mas não quero ir embora e deixar-te outra vez. Não quero perder-te de novo. Um minuto é tempo demais sem ti agora que voltaste… Será que sentes o mesmo? Os teus olhos disseram que sim, o teu abraço parecia o mesmo que me deste quando nos apaixonamos, foi sofrido, foi ansioso… Começam a chamar-te. O meu corpo ainda treme, falas para mim, vejo os teus lábios a tremer também. Percebo no teu olhar que temos muito que falar os dois, mas agora ainda não podemos. Pegas na mala, olhas para mim profundamente como que à minha espera, e eu sigo-te, enquanto entras no elevador e nos juntamos a todos…


(Continua…)

** Capítulo Anterior ** 

28 de outubro de 2018

Um Oceano entre Nós - I

* Capítulo I  *  Capítulo II  * Capítulo III * Capítulo IV * Capítulo V *

No dia que entraste naquele avião, eu senti-me morrer. Morrer de saudades, mesmo antes de ver o avião a descolar do chão, o mesmo chão que eu pisava, onde eu sabia que em poucos minutos deixarias de estar também. Mas eu acreditava que voltavas. Eu sabia que voltarias. Esperei por ti, todos os minutos, todos os segundos, eu esperei por ti, escrevi-te todos os dias, tu escreveste-me todos os dias, durante meses, durante um ano, cartas cheias de páginas, tu escrevias na minha língua, eu escrevia na tua, e, de um momento para o outro, o nosso mundo desabou… Proibiram-me de te amar, deixei de receber cartas tuas, perdi-te a milhares de quilómetros. A vida colapsou entre nós e nem sequer pudemos dar um abraço, um último beijo, nem sequer pudemos olhar nos olhos um do outro e falar… porque havia um oceano entre nós…

Acreditei tantos anos que tu voltarias um dia, que haverias de me querer outra vez, sonhei com isso, esperei, mas os anos passaram e a vida, essa, não me deu folgas… A minha mãe adoeceu, o meu melhor amigo morreu, tu casaste, tiveste um filho, eu chorei como se o chão tivesse aberto um fosso nos meus pés, senti-me perdida, perdi toda a esperança, perdi-me… Tentei não pensar mais nos meus sentimentos por ti, doía demais e, muitos anos depois, casei também. No ano seguinte, escreveste-me a dizer que querias falar comigo, e contaste-me que te tinhas divorciado, que sentias a minha falta, que não me esqueceras, eu estava grávida do meu filho, senti-me dilacerada… Não te podia dizer que ainda te amava, não podia, não sabia o que fazer e escondi-me, atrás das próprias grades que eu criei, para proteger o meu filho do sofrimento, do desgosto…

Ele nasceu, amei-o todos os segundos, sorri-lhe todos os dias, no brilho dos olhos dele acreditei que fiz o que estava certo, o que qualquer mãe faria…E enquanto o via a crescer, o meu coração desfazia-se como grãos de areia com o tempo, sem ti…

Seis anos depois, escreveste-me a dizer que ias voltar. Passados vinte e seis anos, irias atravessar o oceano entre nós… Mas naquele instante enquanto a luz da esperança parecia brilhar como uma estrela, também me disseste que ias casar… Pensei que não podia extinguir-me por dentro outra vez, mas foi como se me tivessem dado um choque para me reanimar, só para poder morrer outra vez…
Embora viesses sozinho para o meu País, o teu coração tinha novamente dono e não era eu…

Tive medo de acreditar que voltarias mesmo, até porque em algum dia eu deixei de acreditar que voltarias, não depois de tantos anos, não pensei que pudesse cair tal explosão tipo quasar na minha vida. Muito menos agora com as nossas vidas alinhadas em quadrantes diferentes…

Quando me disseste o dia e a hora do avião, eu acreditei. Acreditei que ias voltar. E, durante meses, rezei, eu que nunca fui de rezar, rezei, pedi, implorei, para que nada te impedisse, para que nada acomtecesse, para te poder voltar a ver, nem que fosse só mais uma vez. Contei cada dia, cada hora, cada minuto, até hoje. Esta semana, mal dormi, mal comi, mal consegui pensar, mal respirei…

Só quero ir a correr, abraçar-te, quero agarrar-te e nunca mais te largar…

Agora, chegou finalmente a hora, eu estou aqui no aeroporto, o teu avião já aterrou, e eu estou aqui sem conseguir tirar os olhos da porta de chegadas, à espera de te ver, vinte e seis anos depois. Não consigo inspirar, a cada minuto que passa eu fico com mais medo que não saias daquela porta, porque não sei se entraste mesmo no avião, e, para mim, que esperei tantos anos, estes minutos deviam parecer curtos, mas, no entanto, parecem um caminho tumultuoso sem fim…

(Continua...)

Sandra Reis