Este blogue é um ponto de encontro com amigos desconhecidos que se reconhecem nas palavras e nos gestos, aqueles por vezes tão comuns que deixamos de reparar, até alguém nos voltar a falar deles, como se fosse a primeira vez.

Música

18 de setembro de 2018

Ode ao Primeiro Amor (Aquele que dura para sempre)




Nunca sentes saudades?

Eu sinto…
Saudades do teu sorriso apertado
Da tua voz doce quase rouca
De como abanavas as pernas, agitado,
Saudades do teu cabelo ondulado
Que enfiavas atrás da orelha, arrumado,
Do teu kispo azul escuro tão usado
Do teu corpo perfeito e exercitado
Das tuas mãos, nas minhas, se terem demorado…

Mas ainda tenho mais saudades,
Dos passeios à beira-mar que nunca fizemos
Das gargalhadas que nunca partilhámos,
Das palavras de amor que nunca dissemos,
Das mãos que nunca entrelaçámos
Dos olhares que nunca trocámos,
Dos beijos que nunca demos…
Da oportunidade que nunca tivemos…

Saudades tão selvagens
Que só tu as podes domar
Que me consumem
Por todos os meus dias,
Que sem ti são noites, sem luar.

Toma-me nos teus braços
Não precisas de te ajoelhar
Não precisas de me decifrar
Olha-me nos olhos simplesmente
Como nunca antes fizemos…
E acorda-me,
Sela o meu coração ao teu,
Com um longo e impetuoso beijo,
Aquele beijo que nunca demos…

S.R.

Tarte de Atum SEM ovos (Super Rápida e Leve)





Ingredientes:

1 massa folhada
2 latas de atum natural
1 cebola
1/2 tomate
1/2 alho
2 colheres de sopa de milho
¼ de pimento vermelho
1 pacote de natas de soja
1 pacote de mozarella ralado light
¼ de copo de leite

Estender a massa e picar com um garfo
Refogar o atum com cebola, alho e tomate e deixar arrefecer um pouco
Espalhar o atum por toda a base de massa folhada. Salpicar com milho e fatias finíssimas de pimento (Opcional: juntar pedacinhos de ananás também)

Numa taça, misturar as natas, o queijo e o leite
Cobrir a tarte com esse molho
Enrolar toda a massa excedente e molhá-la com água

Levar ao forno pré-aquecido a 190ºC
Deixar 25mins a 180ºC + 10mins a 160ºC ambos com calor só por baixo


Ficou 5 estrelas!

15 de setembro de 2018

Noites de Verão





É quase meia-noite, calço umas sapatilhas e saio de casa, a correr como se fosse a Cinderela a sair do Castelo para voltar à vida real, sendo que aqui a vida real é bem melhor. Não são insónias nem a habitual vontade de estar acordada, porque à noite, no silêncio, vem sempre a inspiração, principalmente nas noites de Verão, adoro as noites de Verão. Mas não é nada disso. Entro no carro e sigo em direção à praia. Sento-me na areia e espero que os meus olhos se habituem à escuridão, há seis anos que espero por este momento, ouço apenas o mar, fecho os olhos um minuto enquanto ouço as ondas e inspiro a maresia, quando os abro é como se acordasse para a vida, começo a ver estrelas e mais estrelas, até que percebo a infinidade de estrelas que consigo ver quando não há luz, nem ecrãs! À minha frente vejo Vénus, ao lado esquerdo Júpiter, vejo pela primeira vez um satélite a passar lentamente na sua órbita habitual da Terra, viro-me para a esquerda e vejo um ponto luminoso amarelo alaranjado super brilhante, mas na verdade não brilha, é um planeta, é Marte, mesmo quase ao lado direito de Marte avisto um ponto mais pequeno, Saturno, que vejo pela primeira vez. Deixo-me cair sobre a areia e em cima começo a perceber a via láctea, atrás de mim vejo a cassiopeia, e mesmo por baixo dela as Perseidas, não podia ser mais fantástico, olho de novo para cada um dos quatro planetas, e depois volto-me para a cassiopeia com dificuldade em tirar os olhos dos planetas, porque me sinto fascinada pelo Universo, pelo misterioso, grandioso e lindo Universo, e vejo duas estrelas cadentes mesmo à direita das Perseidas, e mais outra... Sou invadida pela mesma sensação de encantamento que havia sentido há seis anos atrás, quando assisti pela primeira vez, por mero acaso, a uma chuva de meteoros em Agosto.

Fico deitada ali, não importa mais nada. O ar é quente, sinto aquele “cheiro” das noites quentes de Verão e sinto saudades da “verdadeira” noite de Verão, aquela que supera todas as outras, ou muitas que se juntam numa só memória. Não falo de noites de festa. Falo das primeiras vezes de “tudo” nas noites de Verão. A primeira vez que caímos duma “colina” de areia na adolescência com os irmãos, primos ou amigos. A primeira vez que molhamos os pés à noite, e a água está morna e o céu estrelado, e nunca mais esquecemos como é bom aquele momento, um momento que se imortaliza na nossa memória por ter sido na adolescência, a idade em que descobrimos e queremos perceber o mundo, a idade em que despertamos da infância e queremos saber o que é e quem somos. A primeira vez que vemos a maré baza até ao fim do longo esporão da praia e caminhamos até lá com alguém especial, pela areia molhada iluminada pela lua cheia. A primeira vez que alguém nos escreve “Amo-te” em letras gigantes na areia, mesmo junto à ponta do esporão, onde há apenas um areal enorme com rebordos de água calma a reluzir o brilho da lua. Tentamos memorizar aquela imagem para que dure até ao fim da nossa vida porque sabemos que em poucas horas o mar voltará a cobrir todos aqueles metros de areal e a apagar o “Amo-te” para sempre. A primeira vez em que nos deitamos na areia à noite e olhamos o infinito, as estrelas e nos sentimos pequenos, tão pequenos, e percebemos por instantes a dimensão de tudo o que existe à nossa volta. A primeira vez que damos um beijo na praia com o luar reflectido nas ondas do mar…

Quando somos novos temos uma liberdade à qual não damos valor, apesar de termos regras, horários impostos pelos pais, temos uma liberdade que só valorizamos quando somos mais velhos e compreendemos que aquilo era realmente Liberdade, e temos um emprego, uma família, uma vida com as obrigações normais. 

Há que apreciar e dar valor a todos estes pequenos momentos, pormenores, descobertas, são portas que se foram abrindo para nós, para um mundo de sonhos, memórias e conquistas fantásticas. Nunca devemos subvalorizar os pequenos momentos da adolescência. Eles vão moldar-nos, acompanhar-nos, fazer-nos crescer e, quando formos mais velhos, vão fazer-nos sorrir e encher o coração de uma alegria cheia de amor, que nos faz bem.   

S.R.

13 de setembro de 2018

Voltar a Casa




Como um eco do vento a chamar por nós, nunca haverá ligação mais forte
do que aquela que nos faz desejar voltar para casa durante a vida toda.
Sandra Reis



Quando somos crianças, a nossa casa é aquele lugar seguro onde brincamos, onde sorrimos e choramos, onde temos alguém, um pai, uma mãe, uma avó, um irmão, ou até o cão, que nos espera ansioso, a nossa casa é aquele sítio onde acreditamos que estamos protegidos de tudo.

Quando somos adolescentes, a nossa casa é o sítio onde crescemos, onde nos moldamos, e embora passemos a querer mais estar fora de casa, estar na escola, estar com os amigos e sair, quando ficamos tristes, desiludidos, confusos, quando precisamos de conforto e desabar em segurança, corremos de volta para lá, onde talvez haja alguém pronto para nos dar um abraço incondicional, alguém que nos permite chorar sem vergonha, ou pelo menos, onde teremos o nosso refúgio dum mundo que vamos descobrindo cada vez mais complicado e difícil.

Quando nos tornamos adultos, há uma estranha mudança, e embora desejemos voltar a nossa casa porque temos saudades todos os dias, mil vezes saudades se estivermos longe, mas nessa altura a nossa casa já não é apenas o espaço físico delimitado por paredes e janelas, mas sim um espaço, criado por nós, um espaço à nossa volta onde estão as coisas mais importantes para nós, a nossa família, os nossos animais, os nossos amigos, as nossas coisas, o jardim onde passeávamos, o mar onde víamos o pôr-do-sol, a praia onde corríamos no Verão, as árvores na rua, as ruas por onde passávamos todos os dias para ir para a escola, para casa dos amigos...

A nossa casa é aquele sítio onde crescemos, onde criamos as nossas histórias, onde fomos felizes, até que um dia percebemos que a nossa casa pode ser noutro sítio qualquer, onde temos o nosso coração e as pessoas mais importantes do mundo, que amamos e fazem parte de nós. Quando nos apaixonamos de verdade, a nossa casa passa a ser um "coração itinerante" e vamos até ao fim do Mundo pela pessoa que mais amamos, porque onde ela estiver será agora a nossa verdadeira casa. Todas as paredes e todas as janelas serão agora apenas um espaço secundário para estarmos perto dessa pessoa. A nossa casa é o sítio onde está ou esteve a pessoa que mais amamos no mundo, mesmo que um dia essa casa possa ser um sítio triste e sem vida, um sítio onde podemos estar algumas horas perto de alguém que já perdemos.

Continuo a sentir que Espinho é a minha casa, não as paredes e as janelas daquela casa onde vivi e cresci, essa é apenas um pequeno pedaço dum todo, mas Espinho completo, a cidade onde cresci, onde me tornei na pessoa que sou, onde "escrevi" o meu livro de histórias encantadas e desencantadas, onde está a minha praia, o meu mar, o meu parque, tanta coisa... não a trocaria por mais sítio nenhum, mas quando nos apaixonamos a nossa casa passa a ser junto de alguém, e, por isso, hoje vivo no Porto, com as pessoas mais importantes da minha vida, porque agora eles são a minha verdadeira casa.

Onde quer que estejamos, onde quer que vivamos, não há nada como voltar à nossa casa, seja por um dia ou para sempre, não é verdade? Seja ela qual for...

Sandra Reis



12 de setembro de 2018

#2 Marialva





Marialva, um dos sítios mais intensos onde já estive. É uma aldeia medieval dentro das muralhas de um castelo. Desde o primeiro dia em que a vi há muitos anos atrás, que me ficou no coração.

É um sítio encantador, mal se entra, inspiramos toda a história, há qualquer coisa que nos liga de forma intensa. Em Portugal, de todos os sítios que já conheci e adoro, este é o mais especial. É como fazer numa só, várias viagens no tempo, é como estar dentro de um livro cheio de histórias ansiosas por serem ouvidas.

«o castelo (...) mais habitado de invisíveis presenças»
(Saramago) 

Quando escolhi este destino, sabia que ia ver algo que nunca tinha visto, talvez bonito ou triste até, pelo facto da povoação ter tido que abandonar as suas casas e toda a sua vida há poucas décadas atrás, um tempo tão perto do nosso, mas quando lá cheguei percebi que era muito mais que isso.

Ao entrar no Castelo, assim que a visão alcançou toda a aldeia dentro da muralha, tive a sensação de pertencer-lhe e de ela fazer parte de mim, como se naquele instante o vento quente me transportasse como sementes de flores, senti-me a entrar num tempo que não era o meu, e a encher-me com saudades que não me pertenciam.

Em todas as janelas vi histórias deixadas para trás, arrancadas a quem lhes pertencia. Por algum motivo a vontade era ficar lá, até o tempo não ser tempo. Conforme caminhava, espreitando cada uma daquelas casinhas, percebia que cada pedra, cada fenda, cada pequeno pedaço de pó, tinha uma lágrima, um sorriso, uma história, de tantos povos e vidas por entre séculos, muitos deles completamente esquecidos e que jamais iria conhecer.

Não sei o que nos faz sentir assim, mas estar naquele sítio tão aconchegado, tão ancestral, tão poderoso, faz-nos sentir a sua grandiosidade, no espaço, no tempo, na cultura, na vida, deixa-nos sem vocabulário suficiente para nos exprimirmos e ultrapassa toda e qualquer capacidade de imaginação.

"O viajante sente o Castelo de Marialva uma grande responsabilidade.
Por um minuto, e tão intensamente que chegou a tornar-se insuportável,
viu-se como ponto mediano entre o que passou e o que virá."
 (Saramago)












Um pouco de História:
 

De facto, as origens longínquas de Marialva parecem remontar ao tempo da antiga Cidade de Aravor, fundada pelos Túrdulos no séc. VI a.C. Este castro, situado numa eminência rochosa sobranceira aos campos da Devesa, foi o principal núcleo da comunidade dos Aravos, sendo conhecido por Castro dos Aravos.
 
Devido aos inúmeros achados romanos e à descoberta de duas importantes inscrições latinas, uma delas ao Imperador romano Adriano no ano 179 d.C. e a outra ao deus Jupiter, pode-se traçar mais uma parte da história, sabendo que com a chegada dos Romanos o nome alterou-se para Civitas Aravorum, tendo sido reconstruída no tempo de Adriano e Trajano, foi um importante ponto de confluência e cruzamento de vias, entre as quais a Via Imperial da Guarda a Numão. Os Godos instalaram-se também no monte, primeira ocupação cristã, mudando-lhe o nome para S. Justo. A esta ocupação seguiram-se os Árabes que terão dado à cidadela o nome de Malva, que reconquistada por D. Fernando Magno de Leão em 1063, lhe chamou Marialva.

Despovoada pelas lutas da Reconquista, D. Afonso Henriques mandou-a repovoar e concedeu-lhe o primeiro foral (1179). D. Sancho I reconquistou-a em 1200, altura em que o povoado extravasou a cerca amuralhada, formando-se assim o Arrabalde que apresenta uma malha urbana de traçado predominantemente medieval, onde proliferam igrejas, capelas, casas quinhentistas e senhoriais, a par de um conjunto de habitações rurais com características típicas da casa beirã. D. Dinis, que criou a Feira em 1286, e D. Manuel, que lhe concedeu Foral Novo (1512), procederam a obras no castelo, transformando Marialva numa das mais imponentes e fortes praças de guerra do reino.

Dada a localização fronteiriça de Marialva - e estimulada pela Feira (dia 15 de cada mês) que concedia diversos privilégios aos moradores e feirantes - iniciou-se no séc. XIII a fixação de judeus, cujo número aumentou durante o reinado de D. Manuel formando mesmo uma judiaria.

D. Afonso V deu o título de Conde de Marialva a D. Vasco Coutinho (1440), que se destacara nas campanhas militares do Norte de África; mais tarde passou a marquesado por mercê de D. Afonso VI (1675), tendo sido primeiro Marquês de Marialva D. António Luís de Menezes, terceiro Conde de Cantanhede, pelo seu papel decisivo na Revolução de 1640.

Em 1855 foi suprimido o concelho de Marialva, que passou a englobar o de Vila Nova de Foz Côa. Em 1872, Marialva foi incorporada no concelho de Mêda.


 

8 de setembro de 2018

Um Amor ao Luar




Todas as noites, ela levantava-se da cama sem sono, soltava os longos cabelos castanhos ondulados e abria a cortina da janela, contando, todas as janelas com as luzes acesas, do edifício em frente, do outro lado do acanhado jardim. Imaginando o que aconteceria em cada uma delas, não se sentia tão sozinha.

Ao lado duma dessas janelas com luz, numa janela, quase sem luz, um rapaz, sentado ao computador, desligava o monitor todas as noites, assim que a via aparecer, e observava-a na escuridão, com o desejo intenso de atear o coração daquela linda rapariga.

Numa noite quente de verão, ela estava de camisola justa sem mangas, expondo os ombros perfeitos, que ele desejava poder agarrar enquanto a beijava. Nessa noite, ele decidiu parar de ser espectador. Nervoso, levantou-se da escrivaninha, acendeu a luz do quarto e encostou a palma da mão no vidro da sua janela.

Da sua janela, do outro lado do jardim, a rapariga morena, viu uma luz acender e um rapaz alto e forte, de cabelo ondulado pelos ombros, com um olhar cativante, levantou uma das mãos e encostou-a à janela, na mão estava escrito “Olá”.

Primeiro, ela ficou sem saber o que fazer, mas porque haveria de ter medo de um olá, gostou do gesto e do olhar genuíno dele. Fez-lhe um gesto de olá com a mão e sorriu-lhe. Ele sorriu de volta e ela desapareceu novamente entre a escuridão.

No dia seguinte, ela voltou à janela e levou consigo um marcador preto para se visse o rapaz. Quando ele apareceu segundos depois, ela desenhou na sua mão, esperou que secasse e fez o mesmo.

Do outro lado o rapaz, sentado ao computador, esperava ansiosamente que ela aparecesse como nas noites anteriores. A luz do quarto dela estava acesa mas desta vez tinha as cortinas corridas. Quando uma das cortinas se moveu e ele a viu, sentiu picadas pelo corpo todo até ao coração. Ela levantou a mão e encostou-a ao vidro, ao ver a mão dela, ele sentiu-se subitamente repleto de um ar doce que lhe fez o coração cavalgar como um cavalo selvagem.

Ela tinha desenhado um sorriso na mão dela, para ele. Ele sorriu-lhe com um olhar feliz, e desenhou um sorriso de volta para ela. Depois virou-se para trás à procura de qualquer coisa e voltou. Colocou um enorme papel na janela com um nome, era o nome dele, Marco, ela sorriu-lhe e foi procurar qualquer coisa. Voltou com um caderno, onde escreveu o nome dela, Mia.

Ele não sabia o que fazer para estar com ela, tinha medo de a assustar. Ela estava a gostar de o conhecer. Naquele instante, ela, que ainda sorria para ele, virou-se para trás, fechou a cortina a correr e apagou a luz do quarto.

Ele não entendeu, será que a tinha assustado? Ou ela estaria em problemas? Durante uma hora manteve-se ali à espera que ela voltasse, mas ela não voltou e ele foi dormir.

A meio da noite ela foi à janela e olhou para a janela dele, estava a luz apagada, mas ele tinha deixado um papel na janela, dizia “PARA TI” e desenhara uma rosa vermelha. Ela sorriu e olhou para as estrelas, que eram as únicas acordadas para além dela. Pegou num marcador e fez um desenho, deixou na janela dela e foi-se deitar.

Na manhã seguinte mal ele acordou foi à janela e viu o desenho dela, uma rapariga à janela com um grande sorriso, por baixo lia-se “Deixas-me Feliz”. Ele ficou ainda mais feliz, e desenhou um rapaz à janela, de mãos no queixo, e a lua. Quando viu, ela entendeu, e à noite estavam de novo juntos, separados apenas por um simples jardim.

Durante duas semanas, olharam-se e corresponderam-se através de papéis, com desenhos e mensagens codificadas. Usavam um código secreto só deles que o Marco inventara, assim mais ninguém os podia entender. Numa cartolina escreveu:

F  o  r  m  i  d  á  v  e   l
0  1  2  3  4  5  6  7  8  9

Colocou o código na janela, quando mais ninguém os via, ela entendeu que cada algarismo corresponderia a uma letra e passaram a comunicar com códigos alfanuméricos. A partir desse momento puderam fazer perguntas e dar respostas. Não tinham namorados, moravam com os pais, ele tinha 17 anos e ela tinha quase 16 anos. Ele tinha um cão, ela tinha dois gatos. Não tinham irmãos. O Marco estudava informática e a Mia estudava artes. Mas nunca tiveram coragem de perguntar os emails ou os números de telemóvel, estavam felizes assim e tinham medo que o outro se assustasse e fugisse por entra a névoa daquele sonho encantado. Gastaram cadernos e marcadores, e saborearam muitas noites cheias de sonhos e sorrisos.

Mas esta noite era diferente, esta noite enchia o peito da Mia de ar quente e vontade de ser aconchegada no peito dele, era uma noite de lua cheia. A Mia, sentia-se apaixonada pela primeira vez, pela noite, pela lua, pelas estrelas e, principalmente, por ele. Ganhou coragem e, em vez de escrever uma palavra, fez-lhe sinal que esperasse uns minutos por ela e foi fazer um desenho. Assim que o terminou colocou-o na janela.

O Marco ficou uns segundos imóvel a contemplar o desenho. Para ele estas semanas tinham sido como um sonho, mas agora que chamaria àquilo? Para ele era a perfeição. Um rapaz, de cabelo pelos ombros, sentado ao computador e, do lado direito, uma rapariga de cabelos compridos com um pincel no ar, que em vez de estar a pintar um quadro, pintava setas na direcção do rapaz, setas que moviam um coração, o coração dela para ele. Tão simples e tão profundo.

Mia, conseguiu ver-lhe o brilho do luar nos olhos húmidos e ele levantou um papel com um enorme coração desenhado, abrindo a mão na direcção dela para ela entender que o coração dele, agora era dela. Dentro havia escrito, 65121-T8. Mia, sorriu de felicidade.

Ambos perceberam naquele momento que não podiam abraçar-se, desejavam com toda a força tocarem-se, ambos colocaram a mão no vidro e olharam-se. Os pensamentos voaram de um para o outro. Sorriram. Mia, desenhou uma seta para baixo, um relógio e um ponto de interrogação. Ele mostrou as mãos levantando seis dedos. Sorriram e sopraram um beijo. Deitaram-se de imediato à espera de adormecer para que as horas passassem mais depressa, mas tudo o que ouviam era o tic tac do próprio coração. Cabiam horas nos minutos daquela noite e o sono nunca chegou.

Ansiosos, minutos antes das 6h saíram de casa, a cada degrau que desciam os corações batiam com mais força. De lados opostos do jardim, eles chegaram, sentiam medo, estavam assustados. Era a primeira vez, era o primeiro amor da vida deles e só desejavam que ficasse para sempre.

Ela espreitava do tronco de uma árvore, ele viu-a e ela sorriu-lhe timidamente. Ele caminhou para ela calmamente, olhos nos olhos. Marco podia sentir o cheiro doce dela, podia ver o castanho avelã dos olhos dela. Segurou-lhe as faces suavemente.

Mia, perdida nos olhos verdes dele, abotoou as suas mãos às dele e encostou as faces ao peito dele. Podia ouvir o coração dele acelerado. Marco agarrou nas mãos dela e beijou-lhe cada dedo, ia beijar-lhe as palmas das mãos quando viu o que nelas havia escrito: “Beija-me”, “Ama-me”. Ele olhou-a nos olhos, sorriu, e mostrou-lhe as palmas das mãos dele, onde escrevera: “Quero beijar-te”.

Pela primeira vez ele ouviu o som da voz dela, “Beija-me”, disse Mia. Ele não respondeu. Beijou-a com todo o amor que sentia no seu peito arrebatado e ela beijou-o de volta. Sentiram que o mundo parara à volta deles, um novo universo irrompia nas suas vidas.

Naquele momento, tinham a plena certeza, acontecesse o que acontecesse, aquele sentimento jamais se apagaria. Pois aquele seria, para sempre, o seu primeiro amor.

S.R.

# Um Amor ao Luar
(Versão Vídeo)