Este blogue é um ponto de encontro com amigos desconhecidos que se reconhecem nas palavras e nos gestos, aqueles por vezes tão comuns que deixamos de reparar, até alguém nos voltar a falar deles, como se fosse a primeira vez.

Música

12 de novembro de 2018

#4 * 700Kms de Paisagem e História


Há quem viaje para se afastar. Eu viajo para procurar, descobrir, aprender, para ser surpreendida, maravilhada, para me encontrar comigo própria. O Mundo é o livro mais antigo e valioso que existe, a cada viagem que faço, desvendo páginas novas de biliões de histórias que jamais conheceria se não estivesse lá, se não fosse, lá, onde elas aconteceram.

Foram 700Kms nesse fim de semana. 376 no sábado e 324 no domingo, não havia muito tempo, mas mesmo assim tentámos e aproveitámos ao máximo, fizesse sol ou fizesse chuva.

Acordámos às 5h no sábado para nos encontrarmos todos às 6h30 e às 7h saímos do Porto ligeirinhos até à Régua, onde chegámos antes das 8h para tomar o pequeno-almoço. Daí seguimos sempre pela N222, considerada a melhor estrada do Mundo, desde o Peso da Régua até ao Pinhão e uma das mais bonitas também. Com 93 curvas em 27km, foi apelidada, por alguns, de “Route 66” portuguesa. (Uma fórmula matemática provou que esta estrada é a melhor para conduzir, tendo em conta o comprimento das retas e o raio das curvas.)

Seguimos a N222 até Foz Côa. As paisagens são qualquer coisa de inexplicável. Sente-se a natureza duma forma muito mais intensa.
Visitámos vários sítios diferentes durante os dois dias, cada um deles mais belo que o outro. Foi um passeio fantástico, daqueles que não queremos que acabem, com amigos chegados, cheio de gargalhadas, daquelas que fazem doer os maxilares, e paisagens avassaladoras. Uma das melhores que fiz até hoje!
Deixo-vos com algumas fotos. Mas nada como ir lá, para ver mesmo a 360º, para sentir, para respirar.




Castelo de Numão

Não estava nos planos, encontrámo-lo devido a um engano no caminho e foi uma bela surpresa. As vistas, o sossego, as muralhas do Castelo, vale a pena conhecer.









Ruínas do Prazo

Descobri-as no Blogue Olhar d' Ouro.
Foi bastante interessante, estar em contacto com tantas idades da História diferentes, conhecer e descobrir mais sobre todos aqueles que povoaram o mesmo território que nós, um dia. "Profanámos" alguns túmulos, que ainda questionámos se seriam realmente túmulos ou bebedouros dado a sua pequenez e estreiteza. Gostei muito das ruínas e de todo o cenário do vale.
 




Saucelle (Miradouro do Salto)

O que parecia ser um caminho curto, afinal foi um caminho longo devido à enorme quantidade de curvas, mas valeu bem a pena. Atravessando Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta fomos dar a Saucelle e subimos até ao Miradouro do Salto onde as vistas são estrondosas.











E dali voltamos para Foz Côa, pela N325, para ser um caminho diferente. A noite foi passada na Quinta do Chão d'Ordem em Muxagata, um sítio fantástico, dona e funcionária super simpáticas, prestáveis, e um pequeno-almoço de rei, muitos animais, piscina, paisagens lindas....




Chegado o segundo dia, só rezávamos que não chovesse, mas choveu um bocadinho e mais um bocadinho, mas até deu para rir :)
Miradouro de São Gabriel

Saímos de Muxagata em direção a Foz Côa para ir até Castelo Rodrigo. A meio desviamos para o Miradouro de São Gabriel de onde a vista tem 360º e é avassaladora. Ali sim, ouvimos o silêncio.




Castelo Rodrigo

Uma aldeia no topo de uma colina, lindíssima, de tons alaranjados.
"O território de Riba-Côa foi ocupado desde tempos remotos, havendo vestígios paleolíticos, megalíticos, da cultura castreja, romanos e árabes (...) Conquistada aos Árabes no séc. XI e dependente do Reino de Leão, foi vila elevada a concelho por Afonso IX, integrando definitivamente o território português a 12 de Setembro de 1297, pelo Tratado de Alcanizes - assinado por D. Dinis, que confirmou o seu Foral em Trancoso e mandou repovoar e reconstruir o Castelo, ação repetida por D. Fernando I em 1373. (...) Castelo Rodrigo está rodeado por uma cintura amuralhada inicialmente composta por 13 torreões (à semelhança de Ávila). Pelas suas ruas encontram-se casas interessantes, umas manuelinas, outras construções árabes, como a casa nº 32, com inscrição e uma carranca, para além da cisterna, de 13m de fundo, com uma porta em arco de ferradura e outra ogival. (...) O pelourinho manuelino - de gaiola e grandes dimensões, atesta o poder municipal, regulamentado pelo foral novo de 1508, altura em que D. Manuel, o Rei Venturoso, mandou repovoar a vila e refazer o castelo. (...) Ainda nas lutas contra Espanha, a vila sofreu em 1664 o cerco do Duque de Ossuna, tendo a sua guarnição de 150 homens resistido heroicamente até à chegada de reforços, travando-se a batalha da Salgadela, junto ao Mosteiro de Santa Maria de Aguiar. Após as Guerras da Restauração, a 25 de Junho de 1836, por Carta Régia de D. Maria II, a sede de concelho foi transferida para Figueira de Castelo Rodrigo. Historicamente, nenhuma povoação raiana exerceu por tão longo período um lugar tão relevante nas relações Luso-Castelhanas e na defesa do território português."




Reserva da Faia Brava

Depois do almoço e algumas chuvadas seguimos para a nossa última passagem, já conhecida, mas impossível de ignorar, Marialva. Seguindo por uma estrada totalmente desconhecida, acabamos por ir dar a um sítio maravilhoso, toda a paisagem era de cortar a respiração, só quero lá voltar com tempo para conhecer cada pedaço daquele sítio. Fiquei totalmente rendida e sem palavras.
Reserva Faia Brava











Castelo de Marialva

E, depois daqueles quilómetros surpreendentes, cheios de fauna e de flora, protegidos e privilegiados, chegámos a Marialva, entre o sol e a chuva, com direito a arco-íris, e fomos visitar mais uma vez o Castelo, como se fosse a primeira vez.
  #2 Marialva









Espero que tenham gostado!



7 de novembro de 2018

Um Oceano entre nós - II


* Capítulo I  *  Capítulo II  * Capítulo III * Capítulo IV * Capítulo V *




























Já tinham passado vinte minutos, e, enquanto desesperava, as memórias invadiam-me como o trailer dum filme no ecrã do aeroporto...
...

Lembro-me da minha avó falar de ti quando eu era pequenina, de me mostrar fotos tuas. Lembro-me das cartas que o teu pai enviava, em envelopes azuis com o desenho dum avião, lembro-me até da letra dele e do cheiro do papel, como era fino e fazia barulho. Tínhamos nove anos quando trocámos a primeira carta, escrevíamos sobre nós, os nossos países, os desenhos animados que víamos, os filmes, as músicas... Trocávamos pequenos pedaços da nossa identidade, fotos, selos, moedas, cromos, desenhos.

Três anos depois, começaste a escrever na minha língua e eu tentei fazer o mesmo e escrevia na tua. Nessa altura já percebia que éramos da mesma família, filho dum tio que eu nunca tinha visto, e estávamos separados por um enorme oceano. Lembro-me de olhar para o horizonte ao fundo no mar e pensar que estarias ali, naquelas linhas do horizonte mais escuras, que parecem montanhas ao anoitecer.

Quando fizemos dezassete anos, os teus pais vieram cá, tu atravessaste o oceano pela primeira vez. E surgiste, neste mesmo aeroporto, na minha vida, pela primeira vez. Todos abraçaram o teu pai com lágrimas, vi o meu pai chorar. Alguém te chamou para me conheceres e eu a ti. Já trocávamos cartas há oito anos, éramos amigos e eu queria conhecer-te, claro, mas, quando te vi ali, não senti que eras meu primo, não, os meus primos estavam todos ao meu lado, e, apesar de seres como um amigo à distância, naquele instante, eras um desconhecido para mim. Não me parecia possível sentir o mesmo amor por ti que sentia pelos meus primos que cresceram comigo todos os dias da minha vida.

Não demoraram muitos dias até perceber que me tinha enganado. Nesse Verão, saímos todos os dias e quase todas as noites, com os meus primos (os nossos primos)… mostrei-te a minha cidade, a praia, o mar, o comboio, que nunca tinhas visto, vimos as estrelas, molhámos os pés no mar ao luar, ficámos tão chegados, em tão pouco tempo, como se escrevessemos há centenas de vidas atrás.

Os teus pais dormiam no meu quarto e nós dormíamos na sala, tu no chão e eu no sofá, todas as noites, durante quase noventa dias, víamos filmes até tarde enquanto os nossos pais dormiam, conversávamos até de madrugada, contávamos segredos, riamos tanto… Numa dessas noites, tu percebeste o meu olhar assustado e eu falei-te dos meus pesadelos, do medo de dormir, e a partir dessa noite, em todas as noites, deste-me a tua mão para eu dormir. Lembro-me de acordar a meio da noite com a mão adormecida e de a tirar devagarinho da tua para não te acordar. Contigo, voltei a sentir-me segura.

Perto da tua partida, foste uma semana para Coimbra, com os teus pais e uns tios e primos. Eu senti a tua falta, uma noite tu ligaste-me duma cabine, até ficares sem moedas, tinhas saudades minhas, acho que ambos percebemos que algo de estranho se passava. Dois dias depois recebi uma carta de Coimbra, tua (que ainda guardo), escreveste que sentias algo dentro de ti que nunca tinhas sentido antes, que não conseguias explicar, disseste-me que me adoravas, que sentias saudades minhas e estavas ansioso por voltar.

Quando voltaste para minha casa, depois daquela simples semana separados, quando te vi foi como se a luz voltasse à minha vida, abraçaste-me com tanta força que fiquei sem ar, sentia o teu coração acelerado, o teu lábio tremia a sorrir, e em pouco tempo percebemos, que as nossas vidas se cruzavam duma forma que não esperávamos, com tamanha impetuosidade que jamais conseguiríamos escapar.
Quando os teus olhos caíam sobre os meus, eu sentia um arrepio a subir o meu corpo todo, como se fosses um relâmpago dentro de mim. Tínhamos apenas 17 anos e dois corações tão crédulos, ainda a florescer, a descobrir os sentimentos, que de uma forma inexplicável se atraíram como duas forças magnéticas poderosas e se apaixonaram perdidamente.

Numa noite, quando todos dormiam, levantei-me para ir à cozinha beber água, quando voltava para a sala, tu estavas ali no corredor, com o teu olhar que parecia entrar dentro de mim, fazer o meu coração explodir e o meu corpo derreter, esticaste os teus braços, agarraste-me com força e deste-me um beijo longo. Um beijo que jamais viria a esquecer, o primeiro e o último beijo que me deste.
Fiquei tão nervosa, tão assustada, como se fosse um crime amar-te… Mas não eras meu primo, não, para nós não, não o sentíamos, éramos amigos há anos que nunca se tinham aproximado até esse ano.
E poucos dias depois, sem termos conseguido falar sobre o que sentíamos, voltamos a ser separados de forma abrupta pela vida, e nunca mais nos voltámos a ver… Foste para outra cidade, outro país, outro continente, ficamos separados pelo oceano, novamente…

Voltámos a trocar cartas, desta vez longas como livros, como romances cheios de páginas, mandavas-me flores, postais, poemas, cassetes a tocar guitarra para mim. Isto iria acontecer de qualquer forma, mesmo que nunca tivéssemos escrito uma carta um ao outro antes, porque havia uma força magnética poderosa entre nós, sempre que estávamos juntos ou afastados, uma força puxava-nos um para o outro contra as nossas próprias capacidades… E, um ano mais tarde um mar tenebroso inundou a minha vida, proibiram-me de te amar, como se isso fosse possível, e tu, deixaste de me escrever…
As músicas que eu ouvia quando partiste, que ouvi nesses anos repetidamente, guardei-as numa gaveta e nunca mais me permiti ouvi-las, não…, porque me apertavam demais o peito, porque ficava angustiada e desesperada, porque tinha que encarar a realidade que nunca mais te voltaria a ver, que nunca mais estaríamos juntos, que nunca mais me voltarias a abraçar e que o beijo que partilhamos naquela noite de Setembro, seria o último beijo que eu teria teu…

Durante anos olhei para a Lua como me dizias para fazer, na esperança de que conseguíssemos ouvir-nos um ao outro, mas nem as nossas luas coincidiam no Céu… Durante anos eu juntei as minhas mãos e fingia que me davas a mão enquanto adormecia… Durante anos usei o colar que me enviaste com as nossas iniciais... Ainda guardo as pequenas flores violetas que me enviaste… Li as tuas cartas durante meses e adormeci agarrada a elas… Durante todos estes anos, mantive-te sempre perto de mim, nos meus pensamentos, nos meus sonhos, nos meus desejos, guardei a tua foto sempre comigo. Afugentaste todos os meus pesadelos, todos os meus fantasmas. Eu não tinha conseguido passar um dia sem pensar em ti… Tinhas que voltar...
...

Da porta, vejo-te de súbito a chegar, os meus olhos demoram a focar tal é o impacto, e assim que vejo bem o teu rosto, tudo à minha volta pára, não ouço mais nada, não vejo mais nada, só a ti, não sei se vou aguentar… O meu coração nunca bateu com tanta força, parece que me vai rasgar o peito… Há emoções a mais dentro de mim. Sinto que me empurram o coração para fora do peito, que mo apertam, que me sufocam… 

(Eu estava bem, eu pensava que estava bem, porque sou tão boa a fingir, a esconder, a enganar-me quando posso sofrer, e fiz isso tão bem, durante estes anos todos mal pensei em nós, estava tudo na gaveta, as cartas, as cassetes, os teus poemas, as músicas que me escreveste, as fotos, os meus sentimentos… Agora, não sou livre como quando tinha 17 anos e te amava perdidamente… Agora tenho uma família, embora imperfeita, não merecem sofrer. Ninguém merece… E tu, tu também tens… Eu ficarei bem, acho que sim, e para já tudo o que desejo é poder abraçar-te finalmente, poder dar-te o abraço que ficou por dar quando entraste naquele avião há vinte e seis anos, poder cobrar a tua promessa, e receber o abraço mais longo do mundo…)

Tu aproximaste-te de todos, abraçaste um a um e deixaste-me para o fim, olhaste para mim, e abriste os braços, apertaste-me com força, durante mais de um minuto ficámos assim, abraçados, e no momento que me voltaste a largar, vi-te tremer, vi-te triste e senti o peso da realidade. Nesse momento, de trás de mim, o meu marido, esticava-te a mão para te cumprimentar, apresentando-se. Foi quando percebi, no mesmo instante em que tu apareceste, ele tornou-se um estranho para mim. Como se eu fosse tua e ele um intruso a observar-nos.

Já viajei no tempo algumas vezes mas desta vez não é igual. Desta vez sinto os pés e a cabeça no presente, mas o coração viajou sozinho vinte e seis anos. Sinto um peso a esmagar-me o peito. Como se estivesse a fazer um luto de alguém que perdi há décadas atrás. Quero chorar e não consigo… Como se durante estes anos eu guardasse isto no fundo do meu peito e de repente ele abrisse sem eu querer. Não sei o sentir, o que fazer, apetece-me chorar, apetece-me sorrir, apetece-me abraçar-te e não te deixar mais partir…

Não sei o que vai acontecer a seguir, mas não quero ir embora e deixar-te outra vez. Não quero perder-te de novo. Um minuto é tempo demais sem ti agora que voltaste… Será que sentes o mesmo? Os teus olhos disseram que sim, o teu abraço parecia o mesmo que me deste quando nos apaixonamos, foi sofrido, foi ansioso… Começam a chamar-te. O meu corpo ainda treme, falas para mim, vejo os teus lábios a tremer também. Percebo no teu olhar que temos muito que falar os dois, mas agora ainda não podemos. Pegas na mala, olhas para mim profundamente como que à minha espera, e eu sigo-te, enquanto entras no elevador e nos juntamos a todos…


(Continua…)

** Capítulo Anterior ** 

3 de novembro de 2018

A Lasanha da minha Mãe


Estes dias andava com desejos da Lasanha da minha Mãe, então fui-lhe pedir a receita!
O que é certo é que ficou tão boa que se pudesse comia outra vez ao jantar e no dia seguinte!
As Mães é que sabem :)

Deixo a receita para 4 pessoas:

Ingredientes:
Um pacote de folhas de lasanha frescas
700 g de carne de vaca para estufar
(pedir para picar no talho depois de ver a carne)
200 g de fiambre
3 pacotes de molho bechamel
1 pacote de polpa de tomate
1 cebola
açucar
azeite

Ligar o forno a 180ºC

Fazer um estrugido com azeire e cebola, quando alourar a cebola, colocar a carne já picadinha, um pouco de sal, deixar estufar lentamente em lume baixo durante 40 minutos a 1h. Juntar polpa de tomate e uma colher de chá de açucar. Deixar refogar uns 10 minutos em lume baixo.

Numa travessa pincelar com bechamel e colocar a primeira folha de lasanha em cima. Depois a carne, espalhar bem. Depois cobrir com fiambre e bechamel.
Depois é só repetir por esta ordem sempre: massa, carne, fiambre, bechamel. Quando colocarem a última folha de lasanha, cobrem apenas com bechamel e cobrem tudo, completamente, para não ficarem pedaços de massa seca.

Levar ao forno 15 minutos só calor por baixo e depois mais 15 por cima e por baixo a 180ºC


Para sobremesa fiz uma mousse de morango com a mesma receita da mousse de maracujá.
Bati 1 pacote de natas até ficarem mais firmes, adicionei 1 lata de leite condensado e misturei devagar com as varas e por fim 15 morangos já triturados na liquidificadora. 2 horas no frigorífico e ficaram prontas!


Bom apetite!

28 de outubro de 2018

Um Oceano entre Nós - I

* Capítulo I  *  Capítulo II  * Capítulo III * Capítulo IV * Capítulo V *



























No dia que entraste naquele avião, eu senti-me morrer. Morrer de saudades, mesmo antes de ver o avião a descolar do chão, o mesmo chão que eu pisava, onde eu sabia que em poucos minutos deixarias de estar também. Mas eu acreditava que voltavas. Eu sabia que voltarias. Esperei por ti, todos os minutos, todos os segundos, eu esperei por ti, escrevi-te todos os dias, tu escreveste-me todos os dias, durante meses, durante um ano, cartas cheias de páginas, tu escrevias na minha língua, eu escrevia na tua, e, de um momento para o outro, o nosso mundo desabou… Proibiram-me de te amar, deixei de receber cartas tuas, perdi-te a milhares de quilómetros. A vida colapsou entre nós e nem sequer pudemos dar um abraço, um último beijo, nem sequer pudemos olhar nos olhos um do outro e falar… porque havia um oceano entre nós…

Acreditei tantos anos que tu voltarias um dia, que haverias de me querer outra vez, sonhei com isso, esperei, mas os anos passaram e a vida, essa, não me deu folgas… A minha mãe adoeceu, o meu melhor amigo morreu, tu casaste, tiveste um filho, eu chorei como se o chão tivesse aberto um fosso nos meus pés, senti-me perdida, perdi toda a esperança, perdi-me… Tentei não pensar mais nos meus sentimentos por ti, doía demais e, muitos anos depois, casei também. No ano seguinte, escreveste-me a dizer que querias falar comigo, e contaste-me que te tinhas divorciado, que sentias a minha falta, que não me esqueceras, eu estava grávida do meu filho, senti-me dilacerada… Não te podia dizer que ainda te amava, não podia, não sabia o que fazer e escondi-me, atrás das próprias grades que eu criei, para proteger o meu filho do sofrimento, do desgosto…

Ele nasceu, amei-o todos os segundos, sorri-lhe todos os dias, no brilho dos olhos dele acreditei que fiz o que estava certo, o que qualquer mãe faria…E enquanto o via a crescer, o meu coração desfazia-se como grãos de areia com o tempo, sem ti…

Seis anos depois, escreveste-me a dizer que ias voltar. Passados vinte e seis anos, irias atravessar o oceano entre nós… Mas naquele instante enquanto a luz da esperança parecia brilhar como uma estrela, também me disseste que ias casar… Pensei que não podia extinguir-me por dentro outra vez, mas foi como se me tivessem dado um choque para me reanimar, só para poder morrer outra vez…
Embora viesses sozinho para o meu País, o teu coração tinha novamente dono e não era eu…

Tive medo de acreditar que voltarias mesmo, até porque em algum dia eu deixei de acreditar que voltarias, não depois de tantos anos, não pensei que pudesse cair tal explosão tipo quasar na minha vida. Muito menos agora com as nossas vidas alinhadas em quadrantes diferentes…

Quando me disseste o dia e a hora do avião, eu acreditei. Acreditei que ias voltar. E, durante meses, rezei, eu que nunca fui de rezar, rezei, pedi, implorei, para que nada te impedisse, para que nada acomtecesse, para te poder voltar a ver, nem que fosse só mais uma vez. Contei cada dia, cada hora, cada minuto, até hoje. Esta semana, mal dormi, mal comi, mal consegui pensar, mal respirei…

Só quero ir a correr, abraçar-te, quero agarrar-te e nunca mais te largar…

Agora, chegou finalmente a hora, eu estou aqui no aeroporto, o teu avião já aterrou, e eu estou aqui sem conseguir tirar os olhos da porta de chegadas, à espera de te ver, vinte e seis anos depois. Não consigo inspirar, a cada minuto que passa eu fico com mais medo que não saias daquela porta, porque não sei se entraste mesmo no avião, e, para mim, que esperei tantos anos, estes minutos deviam parecer curtos, mas, no entanto, parecem um caminho tumultuoso sem fim…

(Continua...)

Sandra Reis