Este blogue é um ponto de encontro com amigos desconhecidos que se reconhecem nas palavras e nos gestos, aqueles por vezes tão comuns que deixamos de reparar, até alguém nos voltar a falar deles, como se fosse a primeira vez.

Música

26 de janeiro de 2018

Hoje fiz uma viagem no tempo



Estava no carro parada num semáforo a ouvir a M80. Tinha parado de chover e as nuvens afastavam-se, começou a aparecer o sol e na rádio começa a dar Cryin’ dos Aerosmith. Estavam reunidas as condições para uma viagem louca no tempo. O sol de inverno, o chão molhado, aquela música, de repente eu estava em 1994 em Espinho na “industrial”. À minha volta as paredes cor de creme desbotado, as janelas castanhas, as árvores e os arbustos do A2, o campo de futebol ao pé das oficinas, uma série de rapazes a jogar futebol numa folga qualquer. Nós, sentados no chão encostados à parede a ouvir música nos walkmans e um tipo de outra turma, a cantar músicas estrangeiras conhecidas, mas com letras inventadas cheias de disparates sobre os profs. Nessa altura nós chamávamos-lhes “Stôres”.

Foram anos bem passados. Todos nos conhecemos, não há estranhos de outras turmas, todos conhecem todos. Durante 6 anos esta foi praticamente a nossa casa, onde crescemos, onde aprendemos, onde nos divertimos e onde chateámos os funcionários e os professores com os nossos disparates...

Calcar a relva, atirar bolas ao pé das janelas, gritar ao pé das salas em aulas, avançar os portões, eram algumas das coisas que deixavam os funcionários com os cabelos em pé, mas aturaram-nos, apesar de tudo foram sempre pacientes connosco, adolescentes em total delírio :D Quantas vezes chateámos o Sr Monteiro que vivia num desassossego por nossa causa, éramos TÃO adolescentes! E quando entrávamos e saíamos da escola pela parte de baixo por cima das grades, só para não irmos dar a volta até ao portão de cima! Coitado do Sr Monteiro, isso é que o punha cheio de ansiedade. E ele era bem paciente.

Como é que uma simples música faz isto? Eu estou em 1994 agora! :) Estou a ver toda a gente a passar, com os kispos! Sim, tínhamos kispos! E não tínhamos frio, e posso dizer que quando entrávamos às 8h30 até parecíamos uma espécie de animais hibernados nos kispos durante as aulas. Os Profs falavam para nós mas só viam metade das nossas caras a sair dos kispos. Que adolescentes que éramos! :D
Quando chovia e havia aulas de educação física parecíamos baratas tontas a tentar descobrir se a chuva que entrava no ginásio já o tinha alagado o suficiente para termos folga!
E a confusão no polivalente quando eram as listas? Parecíamos sardinhas enlatadas. O pessoal das listas em cima das mesas e nós ali todos para as eleições como se fossemos eleitores de verdade que até percebiam muito de política!

Será que os miúdos ainda vão a correr às salas das turmas que fazem testes primeiro para saber o que sai? Nós fazíamos isso e depois os Profs, mais espertos que nós, davam-nos a volta e em vez de um 3 punham um 2 e já não sabíamos a resposta. Porque em vez de nos prepararmos para os testes, preparávamo-nos para as perguntas dos testes das outras turmas! Muito sábio! Muito adolescente! :D
As folhas de teste, vejo-as perfeitamente, será que ainda se usa disso? Às vezes só nos lembrávamos delas 1 min antes do teste, lá íamos a correr àquela janelinha dentro do polivalente implorar por uma folhinha de teste :D

Os livros de ponto, adorávamos espreitar as fotos para gozar uns com os outros. Às vezes rezávamos para que o livro de ponto chegasse à sala depois de nós para não termos falta por nos atrasarmos 5 minutos na conversa com alguém de outra turma…

As melhores aulas que tive foram ali, naquela escola a que chamávamos "industrial" e não escola nem liceu, e até havia uma guerrinha, digamos que pequena, entre a "industrial" e o "liceu", porque uns diziam que uma era melhor que a outra, não sei qual era a melhor, só posso falar de uma delas, aquela em que eu estudei, a industrial.

Não me lembro dos Profs todos, mas não me esqueço dos melhores! O Prof. Teixeira Lopes de História, não foi um dos melhores? Ninguém se punha com brincadeiras nas aulas, estávamos caladinhos, ouviamos, percebiamos e aprendíamos! A Prof Isabel Cristina de Inglês, sempre bem disposta, merecia uma medalha pelo sorriso! A Prof. Alzira de desenho, sempre pronta para nos ajudar nos momentos difíceis. A Prof. Carminda de Filosofia, uma professora e pessoa humana e fantástica, mais palavras para quê? Mas são tantos os Profs e eu não tive aulas com todos. 

Lembro-me que nas aulas de Sociologia ninguém se sentava nas mesas da frente, havia um buraco negro entre o Prof e nós, lembram-se? Não me lembro do nome dele, mas era um excelente Professor também. A serenidade do Prof de latim, nunca conheci ninguém no mundo tão calmo. Tivemos um Prof de geografia no 11º ano que, começava, enchia e acabava as frases com “PAH”, cada frase tinha 60% de “PAH”. Tivemos uma Prof de Português com uma sonoridade tão única (passando dum tom baixo para um berro), que um dia não resistimos em desenhar as ondas da intensidade sonora durante uma aula. Eu sei que é estúpido… Adolescentes!! Vai-se lá perceber o que acontece dentro dessas cabeças!

Depois criavam-se mitos. Os alunos mais velhos gostavam de assustar os mais novos e um dia chegou-nos aos ouvidos que um Prof de Ed. Física obrigava os alunos a correr da praia de Espinho à de Esmoriz, e depois a fazerem flexões com o nariz nos esgotos (nós acreditámos, acreditávamos em tudo!), e, em consequência disso, quando ele foi nosso Prof, nas três vezes que ele chamou o meu nome, eu saí do ginásio a correr, saltei o gradeamento e só parei em minha casa! (Isto é mesmo verdade) :D

Todos os Professores eram diferentes, claro, afinal são pessoas também, como nós! Pobres dos nossos professores, nem sei como alguns conseguiam, havia dias que até nos portávamos bem e as minhas turmas nunca foram más, sempre gostei dos meus colegas, mas tínhamos dias NÃO em que os professores provavelmente iam para casa derreados e nunca lhes demos valor nenhum, porque éramos adolescentes e só queríamos andar felizes e divertidos... Armávamos esquemas para copiar em testes, esquemas que ainda estou para descobrir se funcionam porque nunca cheguei a experimentar, é verdade! Até tremia só de pensar em tentar :D Os Profs não eram cegos, nós sim é que eramos!

As visitas de estudo, autênticas dores de cabeça para os Profs, uma simples visita à Biblioteca Municipal do Porto valeu-nos um belo sermão e castigo porque deixamos o livro de visitas da Biblioteca preenchido, de disparates! Éramos apenas adolescentes normais!

O Sr Amadeu do outro lado do portão da escola, sempre à nossa espera hablando en su castelhano, onde podíamos arranjar umas cáries com aquelas doçarias todas! Isto para nem falar nas idas ao Pepim a correr para comprar 4 bolas de berlim!

Tantas aventuras e boas memórias... E mesmo com tantos disparates que os Profs tiveram que aguentar, nós crescemos, aprendemos. Devemos um obrigado a todos os nossos Professores, porque TODOS tentaram ensinar-nos, mesmo contra as correntes e as marés das nossas hormonas adolescentes! Merecem todo o valor do Mundo!

O meu pavilhão preferido era o A3… Porquê? Não faço ideia, mas foi onde tive mais aulas, era o maior, tinha uma fonte no meio e muito espaço para correr lá dentro, embora dos 15 aos 17 já não corressemos muito para não parecermos miúdos, porque afinal já não éramos miúdos pois não?! :D Correr só em educação física e só se o Prof obrigasse mesmo :)

Eu era uma aluna sossegada, nas aulas, os profs diziam que eu tinha que participar, mas a minha boca não abria, e cada vez que eu tentava, tremia. Eu tentava, juro que tentava, mas não valia a pena. Só conseguia falar da porta da sala para fora.

Foi ali na Industrial que me defini como pessoa. Tive um monte de amigos além da minha turma, um monte de amigos fantástico, uma MIX de tudo, nem sempre os adolescentes rotulam os outros como os adultos, nós éramos todos, completamente, diferentes. Costumávamos juntar-nos nos intervalos, nos furos e no fim das aulas, se desse tempo, tínhamos um sítio especial ao lado do A2, junto das árvores viradas para o campo de futebol. Alguém tinha “grafitado” ali na parede “Convento do Pecado”, nunca soubemos quem, mas dava um aspecto giro. Éramos uma mistura de tudo, uns ouviam Bed of Roses do Bon Jovi, outros Return To Innocence dos Enigma e outros Enter Sandman dos Metallica, umas 50 vezes seguidas… Todos juntos dava uma bela salada de “ruído musical”. Mas nunca nos chateámos uns com os outros, nem chateámos o Sr Monteiro, nem sequer o Sr João, por incrível que pareça! :D

Mas não foram esses os melhores momentos da nossa juventude? Eu chorei na adolescência, claro que chorei, não era preciso muito para fazer desabar o nosso mundo na adolescência, mas agora, só me lembro de como era FELIZ! Nós éramos felizes. Nós faziamos tudo o que nos apetecia. É mesmo verdade… Nós fizemos tantos disparates… Disparates bons! Disparates normais, eramos rebeldes, não eramos vândalos, eramos apenas… como dizer isto… ADOLESCENTES, revoltados sim, porque queriamos dar voz a tudo o que estava mal, queriamos justiça.

Tinhamos tantos amigos, éramos todos amigos, ou quase todos :D Agora os miúdos encostam-se nos corredores da escola a fazer amigos virtuais em várias redes sociais, nós faziamos amigos no A3, no A2, no A1, na rua, no Delícia, na praia, nós faziamos amigos de todo o lado, não importava de onde vinham, nem o que faziam, até podiam andar no liceu!! :D Em 94 os amigos não traziam um perfil pendurado ao pescoço a dizer essas coisas, que importava isso? Falávamos um bocado, riamos juntos, pronto, somos amigos!

E fomos felizes sem telemóveis! Sem internet! Embora já houvesse o curso de informática na altura, fiz muitos e excelentes amigos na turma de informática também. Mas o nosso google naquele tempo era a biblioteca! Não navegávamos na internet, navegávamos na rua, na praia, nos concertos dos amigos adolescentes que formavam bandas! Viviamos no paraíso! :D Jogávamos bilhar e bebiamos panachés com 99% de gasosa! Comíamos gelados Fá, para arrefecer os neurónios adolescentes e peta zetas para nos calarmos (que por sinal voltaram!) Andar na rua era a nossa internet, víamos o Mundo! :D

Não é mau ter telemóvel e internet agora, mas ainda bem que não os tivemos na adolescência, porque tenho a certeza que agora não teriamos tantas memórias e histórias fantásticas para contar.

É bom viajar no tempo, mas fica sempre tanto por dizer…

Um abraço ENORME a todos os meus amigos da adolescência, alguns que ficaram outros que não, mas um abraço a todos. OBRIGADA POR TEREM PARTILHADO COMIGO O MELHOR TEMPO DAS NOSSAS VIDAS. O mais louco, estúpido, inocente, divertido, e FELIZ! :D Na melhor escola do Mundo! A “industrial”! ;) 

Foi bom viajar no tempo, talvez um dia possamos todos viajar juntos até lá! ;)



 Esta foi a minha turma, do 10º ao 12º ano :)



24 de dezembro de 2017

Feliz Natal



Votos de um Feliz Natal.

O meu desejo de Natal é que o Universo possa levar carinho a todos os Animais neste Natal, mesmo aos que estarão sozinhos, fechados às escuras em canis, abandonados na rua ou presos a uma corrente... E que 2018 seja um ano de maior sensibilidade, empatia e respeito por todos os Seres Vivos.

Obrigada a todos os que Ajudam as Crianças, os Animais, os Sem Abrigo, e todos os que necessitam, independentemente de como o fazem, principalmente os que fazem tudo para ajudar mesmo que quando têm que "remar contra a maré". Feliz Natal.


Sandra Reis

5 de dezembro de 2017

A Fórmula do Amor


Hoje é um dia especial, mais especial do que arco-íris e unicórnios, mais mágico que fadas e dragões, mais feliz ainda do que qualquer outro antes deste.

Ser Mãe é uma felicidade suprema constante, é um desafio, uma aventura, um medo que trazemos escondido num recanto do peito, uma força que nos levanta até no pior momento, uma coragem que não teríamos por outra razão senão os filhos, um sorriso que nos sai directamente do coração... Ser Mãe é mais do que qualquer palavra criada possa exprimir.

A cada ano que passa este dia torna-se mais especial. Começo a sorrir uns dias antes, sempre que penso nisso. As duas fazem anos, uma faz cinco a outra faz três. O que por si só já é incrível, porque em 365 dias num ano elas foram escolher exactamente o mesmo dia e o mesmo mês para nascer. 

Olho para elas, observo-as, admiro-as, e pergunto-me como não vejo o tempo a passar de dia para dia, como é possível que tudo parece que aconteceu ONTEM, e não, há um ano, dois ou cinco...

A mais velha pergunta a toda a hora "Mãe, quantos dias faltam para os meus anos?" e já conta os dias por ordem decrescente. A mais nova não percebe porque conta ela os números ao contrário, mas quando lhe dizemos que vai fazer anos ela sorri e salta porque sabe o que isso significa, embora não perceba realmente o que isso quer dizer.

Olho para a mais velha, dois anos antes ela era assim e aí sinto que o tempo passou. Olho para a mais nova e percebo que ela irá contar os dias como a mais velha, talvez daqui a um ano, um ano que parece distante mas que, chegado lá, parecerá meras horas para mim.

Olhando para trás, eu vejo que desde o minuto em que elas nasceram até este minuto, o tempo realmente voou. Mas no presente o tempo parece quase parado, como se tivessem nascido apenas há alguns minutos, como desde qualquer outro momento até agora, parecem sempre ontem. Talvez seja esta a verdadeira teoria da relatividade.

Tenho momentos em que sinto que o tempo não chega para tudo e às vezes nem chega para nada. Mas quando penso nelas, quando fico a observá-las, de alguma forma, o tempo parece distorcer-se. Talvez seja esse o verdadeiro wormhole, em que conseguimos viajar no espaço-tempo em segundos, percorrendo anos em meros minutos.

E as duas vão crescendo, mudando, e eu vou percebendo isso ao olhar para elas, mas, de alguma forma, não vejo o tempo, porque esse passa de uma maneira muito diferente, de uma forma que só uma mãe e um pai podem perceber. Talvez, não seja uma equação do tempo, talvez esta seja simplesmente a fórmula do amor verdadeiro e puro, um amor infinito, sem tempo, sem espaço, sem limites.

S.R. 

11 de novembro de 2017

Amizades Encantadas



Esta Cinderela faz-me sorrir e sentir bem. Não me faz pensar em Príncipes Encantados, até porque apesar de já ter acreditado nisso um dia, sei que não existem, pelo menos encantados não, apenas Príncipes sim. Mas a razão porque adoro a Cinderela, e me sinto feliz ao vê-la é porque me faz voltar a um tempo que foi, esse sim, Encantado, a minha infância. Um tempo cheio de magia que me traz inspiração e coragem. Um tempo cheio de amizades encantadas e eternas, o meu pai, a minha mãe, os meus primos, os meus amigos, amizades que cresceram com os anos, com a vida.

É verdade que temos por vezes saudades de quem se afastou ou de quem afastamos, é verdade que procuramos alguém perfeito, para nós, que procuramos um Príncipe quase Encantado, ou o mais parecido possível, mesmo depois de sabermos que não existe ninguém perfeito, que não fazemos parte duma história encantada, e mesmo até depois de já nos terem partido o coração, talvez uma vez, talvez mais.

Mas é bom sonhar... Acreditar, ter esperança, sorrir... Há momentos na vida, em que pensamos que com a idade perdemos a capacidade de sonhar, mas não é verdade, não tem a ver com a idade, apenas com o nosso coração, e por mais partido que esteja conseguimos sempre arranjar uma forma de ter esperança, de sonhar...

Como todas as quase Cinderelas do nosso Planeta, conheci alguns quase Príncipes que me fizeram sorrir, acreditar, sonhar e chorar, alguns que nem gostaria de voltar a encontrar, mas não ficou nada perdido dentro de nós, nem a esperança. Mesmo que nos magoem, desiludam, traiam, que façam o nosso mundo desmoronar, desaparecer dos nossos pés, mesmo que cada um possa ter um pouco de perfeito e um muito de imperfeito nas suas coisas, fizeram-nos amadurecer, aprender, crescer. Tornaram-nos mais fortes. Às vezes há pequenas surpresas que surgem das nossas histórias desencantadas.

Aconteceu-me a mim, tive alguns desgostos, alguns terríveis até, e entre esses também tive muitos momentos felizes. Mas tive um especial, uma espécie de milagre, em que duma história desencantada de quase Príncipes e Princesas surgiu uma grande amizade. Uma amizade que nasceu dum amor de adolescentes, uma improbabilidade que se tornou real e nos tornou melhores amigos há mais de duas décadas, uma amizade que transcendeu todos os obstáculos e todas as possibilidades.

Vale a pena arriscar para descobrir o que pode acontecer.

S.R.

6 de novembro de 2017

Bolo de Laranja e Iogurte com Pedaços de Chocolate





 
5 ovos inteiros
250gr açúcar
1 c. sopa de planta
225gr farinha
3 iogurtes naturais
Sumo de 1 laranja
Nutella
¼ de uma tablete de chocolate de leite



Pré-aquecer o forno a 150ºC e forrar uma forma com papel vegetal.
Misturar os ovos, o açúcar, bater, juntar a manteiga, bater, adicionar a farinha e depois os iogurtes, bater novamente e juntar sumo de uma laranja espremida. Quando a mistura estiver no ponto, despejar sobre a forma já forrada. Espalhar pequenos pedaços de nutella com a ajuda de duas colheres de café. Cortar o chocolate em pedacinhos pequeninos e deixá-los cair docemente pela massa. Levar ao forno.

Colocar no forno a 140ºC durante 50 minutos só por baixo.




2 de novembro de 2017

Espinho...

Sinto saudades de Espinho...
Penso na minha cidade que, mesmo longe dos incêndios, tantas mãos e bolsos vis tratam de destruir ano após ano.

Tenho saudades da forma como a brisa à beira-mar me afagava o cabelo no outono. Em Espinho sinto-me completa, reconheço-me, encontro-me, não me sinto perdida, desligada, uma estranha ou emigrante em terra desconhecida. Em Espinho sinto-me protegida do mundo, como uma criança assustada no colo da sua mãe.

Não podemos permitir que destruam a cidade, que se perde a identidade a pouco e pouco. As casas abandonadas, as lojas afogadas pela indiferença de quem pode salvar esta cidade mas prefere olhar a tesouros alheios.

Espinho não quer crescer, não anseia ser moderna ou melhor que nenhuma outra, não deseja ser grandiosa, Espinho só quer viver, a vida que tinha e lhe foi tirada aos poucos sem ninguém perceber. 
Espinho só quer ser o que sempre foi, uma cidade grande de coisas pequenas, pequenas mas cheias de valor e importância.

Quem a governa com ganância não sabe o que Espinho quer, e tira-lhe a água das raízes como uma árvore a quem impedem de viver.

Espinho é o meu berço, onde escrevi a minha história. Espinho não é o abraço de uma figura em ouro reluzente, tal escultura fria e sem alma... Espinho é o abraço duma mãe carinhosa, atenciosa e dedicada.

S.R.



...


 
 Um vídeo de Jorge Portojo

Um vídeo de "Horizontes da Memória"
com o Prof. José Hermano Saraiva


20 de outubro de 2017

A luz do céu de Domingo...

 

Tirei esta foto da minha varanda no Porto no domingo, ainda sem saber o que estava para vir, tinha estado uma manhã radiosa e ao fim da tarde o céu tinha tons amarelos e cinza, eu pensei que era uma mistura de começos de Outono com chuva a aproximar-se, ainda não tinha ligado a televisão, nem o computador e as crianças olhavam da janela e diziam-me "Que luz estranha está tudo amarelo lá fora" e mal sabia eu que não eram nuvens de chuva mas de fumo, que mesmo de longe, chegavam ao Porto...

É sempre difícil falar do que nos magoa profundamente. Embora não tenha sido afectada directamente pelos incêndios aqui no Porto, sinto que me espetaram pequenos estilhaços no coração. Não é justa a vida, é verdade, mas ver pessoas a perderem tudo, tudo o que construíram uma vida inteira, só porque alguém gosta de atear fogo, ou por guerras comerciais, interesses económicos, destruição política... As guerras são deles, não do povo. Morreram pessoas sufocadas, carbonizadas, não é maneira de morrer, assim se morria na idade média, não agora. As que sobreviveram sofreram e sofrem, perderam tudo o que construíram, perderam família, perderam mais um pouco de fé na humanidade. Morreram milhares de animais de forma tão cruel... Associações e humanos que arriscaram as vidas para salvar os animais, outros que os tiveram que libertar ao seu destino para terem pelo menos a oportunidade de talvez sobreviverem. Há um rasto de vidas carbonizadas em Portugal, e quando falo de vidas refiro-me a todas, sejam humanas ou não humanas. Em minha casa, desde pequena, os animais são família, não precisamos esperar pela da nova lei para os amar, entender e saber que eles sofrem, choram, angustiam, entram em depressão, como nós humanos.

Estes dias nem consegui falar, mediante tanta destruição no nosso País, não existem palavras que cheguem, nem lágrimas que limpem os corações de quem sentiu e ainda sente esta devastação. Uma cadela que carregava na boca uma cria bebé carbonizada. Não é preciso mais palavras que isto. Há animais mais humanos que os homens. Esta cadela carregou a cria morta e queimada, não a abandonou e, apesar da aflição, houveram demasiados humanos que deixaram cães acorrentados, enjaulados e animais fechados em celeiros perante a aproximação das chamas. Acredito que alguns podem não ter conseguido mas também sei que muitos nem tentaram... Isso deixa-me o coração cheio de tristeza, uma tristeza maior que qualquer revolta, uma tristeza que tão cedo não conseguirei esquecer nem perdoar...

Não perdi a fé nem a esperança na humanidade, apenas em muitos humanos que não o são verdadeiramente. Como puderam fazer isto ao nosso Portugal? Tínhamos um País tão lindo, tão sereno... Aldeias históricas... É impossível não chorar ao ver as imagens da vida a arder, os nossos pinhais, o verde do nosso País, a Natureza, também fazemos parte do Planeta... Acho que muitos de nós estão num luto interior silencioso, porque ainda parece tão difícil de acreditar, acreditar que pessoas, como nós, possam ter-se divertido a fazer isto ou possam ter feito isto com intuitos lucrativos sem se importarem com ninguém Considero estes incêndios e os anteriores um atentado contra o nosso Portugal, contra o nosso Planeta e todas as formas de vida nele e espero que seja feita justiça, uma justiça a sério, sem pulseiras, sem imunidades...

Trago Portugal em cinzas no meu coração, mas sei que, embora devagar, vai recuperar, porque nós portugueses somos fortes, aguentamos tudo mesmo quando acreditamos que não poderíamos aguentar mais. E não tarda, um dia o Sol volta a brilhar dentro de cada um de nós, e nesse dia voltaremos todos a estar de pé e a esperança será renovada.

Plantemos todos uma árvore,
purifiquemos o pulmão do nosso País,
por todos, por Portugal, por D.Dinis!

Sandra Reis

10 de outubro de 2017

Os Animais


Dia 4 foi Dia Mundial dos Animais, para mim devia ser todos os dias, assim como o dia da Mãe, o dia da Criança, porque todos merecem respeito, amor e carinho.

Se há algo que nunca consegui compreender desde criança era como poderia alguém magoar um animal. Felizmente cresci numa casa e no meu jardim (encantado para mim), havia de tudo, formigas, borboletas, caracóis, toupeiras, ratos, pássaros, minhocas, bichinhos daqueles castanhos que faziam uma bolinha se lhes tocássemos e gatos também que passavam de casa em casa, jardim em jardim através dos muros. Sempre achei que aquele mundo cheio de verde, flores e animais tinha que ser um mundo especial, encantado, mais encantado que qualquer história de Príncipes e Princesas.

Durante a adolescência, que por si só já é uma fase difícil porque somos surpreendidos todos os dias com novos sentimentos e emoções para aprender a gerir, eu percebia que não conseguia gerir a tristeza e a angústia horrível que sentia sempre que via um animal perdido na rua sozinho, um cão acorrentado a uma casota, um gato que parecia doente, quanto mais descobrir que os homens torturam animais, abandonam animais, abusam e maltratam-nos, deixam-nos a morrer à fome...

Tive um instrutor de condução, em 97 acho, e ainda hoje me lembro bem, que abriu a porta do carro em andamento para empurrar um cão que estava parado no meio da rua, não o magoou porque eu ía a 20 para aí, mas podia ter magoado, e foi a atitude desumana e fria que me chocou, fiquei tão mal que nunca mais lhe falei.

Depois disso comecei a ver um mundo, o mundo real, que não sabia que existia, quando percebi que não conseguia fechar os olhos, era doloroso demais fingir ou esquecer, comecei a agir por minha conta e risco... Tanta gente contra mim... É tão fácil analisar e rotular os outros quando nem sequer nos conhecem... Quando se ajuda os animais somos rotulados, mas nunca me incomodou. Uns pensam e dizem que não podemos funcionar bem da cabeça por andarmos a resgatar animais, outros agridem-nos fisicamente.

Em 2006 quando tentava desesperadamente tirar um cão da rua com um amigo, com grande dificuldade dado que não tínhamos nada, nem conhecíamos ninguém que nos ajudasse, nem associações, nem família, nada, fizemos tudo por aquele cão... E numa noite em que estávamos lá sentados no jardim com ele, fomos apedrejados, sim, como fazem nos países árabes, só que eram bem portugueses aqueles, o meu carro ainda tem as moças no tejadilho, tivemos que correr e enfiar-nos dentro do carro, eram mais de 12, um homem, a mulher, o filho e os amigos do rapaz de dezassete ou dezoito anos, todos de pedras na mão, apenas porque não queriam que fossemos fazer festas ao cão que alguém tinha abandonado ali (provavelmente eles, a mulher do homem, segundo uma vizinha). A polícia não fez NADA. Falamos com uma vizinha que felizmente deixava o cão dormir dentro da garagem da casa dela à noite, para não lhe fazerem mal, a nossa procura por família continuou e as nossas visitas ao cão também, mas mais escondidos, foi uma luta muito dura, um enorme desgosto, ficam a revolta e a mágoa... Ajudar aquele cão não foi suficiente... Não foi suficiente porque o ser humano é um ser mau, muito mau...

Até hoje não parei mais, há dias em que sinto que estou a cair num abismo, mas quando acordo de manhã, mesmo sem força, sei que não posso deixar-me cair nesse abismo porque o que será desses animais se todos nos entregássemos ao cansaço e à apatia, se não houvesse ninguém para os ajudar? Ao longo dos anos tive que aprender a lidar com o facto de não poder salvar o mundo, de não poder salvar nem uma pequena fracção do mundo, é difícil, é uma impotência que nos abafa e aperta no peito, mas eu sei que não sou sobre-humana... Ninguém é... Mas se educarmos as Crianças e os Adultos para esta realidade paralela dos Animais que é a nossa também, e se todos fizerem um pouco pelo menos, tudo será muito melhor... Há milhões de Animais que precisam de nós.

Nós alteramos e destruímos ecossistemas, provocamos a extinção de milhares de animais, poluímos, enchemos o mar e os oceanos de plástico, destruímos para extrair petróleo, fizemos buracos no ozono, cortamos as árvores que nos dão AR!

Nós homens temos voz para pedir ajuda, somos responsáveis e temos o dever de respeitar e ajudar todos os seres indefesos. Mas esta história fica para outro dia, até porque é uma história cheia de histórias, umas acabam bem, outras acabam mal, e independentemente de como acabam, temos sempre que conseguir encontrar a força para continuar.

Glorifico todos os que ajudam os Animais, seja pouco ou muito, simplesmente porque não fecham os olhos nem lhes viram as costas, e estes sim, são Humanos!


1 de outubro de 2017

Um Porto Encantado



Quando eu era pequena íamos muitas vezes ao Porto. Sempre gostei do Porto. Não sei se mais do que agora que vivo no Porto, era simplesmente diferente, eu era criança e quando somos crianças vemos tudo duma forma especial, vemos para além do que os outros vêm, vemos pormenores que tornam as coisas profundas e sempre, mas SEMPRE, belas.

Quando crescemos entendemos coisas que não entendíamos e vemos pormenores reais e tristes que não víamos, vemos as coisas duma forma mais realista e objectiva. As pessoas que dormem no chão enroladas em tapetes ou dentro de caixotes, outros que pedem nas ruas, tantas lojas que fecharam e ficaram assim, abandonadas, as casas tão bonitas, agora devolutas, o turismo, que é bom claro para ajudar a reconstruir a cidade, mas de que certa forma, vai tirando aos poucos alguns pedaços da identidade tripeira. Mas a verdade, é que neste momento, não falta nada no Porto. Agora vejo a cidade e vivo-a todos os dias, porque moro nela, e é diferente, não é um olhar atento como era, não é um olhar fascinado como era, é um olhar de orgulho, mas às vezes o caminho passa-nos ao lado, porque quando vemos algo todos os dias, por vezes, esquecemo-nos de o apreciar e ver realmente, como quando somos crianças.

Lembro-me do enorme choque que tive quando tiraram o jardim da Avenida dos Aliados, lembro-me de pensar "que crime...", não podia acreditar, como poderiam fazer algo tão mau, tantos anos percorri aquele jardim, quando vinha de Espinho saía na Estação de S. Bento para apanhar outro comboio na Trindade, passei ali tantas vezes, corri ali, admirava as esculturas entre as flores e o jardim, e de um momento para o outro, transformam todo o verde num enorme tapete de betão porque um homem que se senta na cadeira do poder não gosta de aves por perto, um homem que proibiu os portuenses de alimentar gatos ou cães abandonados na rua e com ameaças físicas, um homem que queria destruir os jardins do palácio de cristal, que corta árvores que nos dão ar e sombra, um homem que cortou na cultura mas gastou em alcatrão para corridas de carros, um homem que queria matar todas as aves do Porto, um homem sozinho que quase tornou o Porto numa cidade mais cinzenta e insalubre do que nos anos da revolução industrial e "esqueceu" que a cidade é dos portuenses e não dele... Não consigo evitar de mostrar o meu desprezo por esta pessoa, por todo o mal que fez à cidade, às pessoas e a todos os seres...

Lembro-me de descer a Avenida da Boavista de Eléctrico, a ver o mar à minha frente e a sentir o vento no cabelo, as portas de abrir e fechar que não eram portas, mas eram fascinantes para mim.
Lembro-me de achar a Estação de S.Bento enorme e fascinante, não dum ponto de vista estético, como agora, havia algo ali, talvez as histórias das centenas de pessoas que chegavam e íam embora, acho que era isso.
Lembro-me de passar a ponte Maria Pia de comboio e como era pequenina não via as grades da ponte e fingia que estava a voar, quando entrávamos no túnel lembro-me de ficar tudo escuro e de conseguir ver as paredes, o som ficava diferente dentro do comboio, até um cheiro mais quente e abafado, e acho que eram três os túneis por onde passava até ver a chegada a S. Bento, e entrar na estação depois do túnel era uma chegada tão mágica como se chegasse à cidade do Pai Natal.
São tantas as memórias, nunca mais acabam...
Os vendedores de bolacha americana na rua e de batata frita na praia. Ainda lhes sinto o cheiro :)

No entanto o Porto está neste momento numa fase incrível de renascimento. Seria terrível deixar o Porto morrer, tem tudo para ser uma cidade inesquecível. Neste momento fico contente porque vejo o Porto renascer a cada esquina, sei que levará tempo e muito trabalho, mas é um começo. E a vida é assim, feita de começos, pequenos, grandes, curtos, longos, mas todos com história, histórias que se contarão um dia mais tarde.