Este blogue é um ponto de encontro com amigos desconhecidos que se reconhecem nas palavras e nos gestos, aqueles por vezes tão comuns que deixamos de reparar, até alguém nos voltar a falar deles, como se fosse a primeira vez.

Música

11 de julho de 2019

Coragem para Mudar

    
"O teu coração é livre, tem a coragem de o seguir"

 


(Carta escrita e enviada hoje ao Primeiro-ministro, Presidente da República, Presidente da Assembleia da República, Ministros, Representantes do Governo e dos Partidos, Deputados)

Por favor leiam e partilhem <3

 Sou cidadã, sou mulher, sou mãe, sou professora do 1º Ciclo, escrevo livros para crianças. Tento ensinar as minhas filhas, os meus alunos, os meus leitores, todos os dias, sem baixar nunca os meus braços ou descansar as minhas pernas, a respeitarem, a ajudarem, todos os seres vivos, toda a Natureza. Quero que percebam que não somos só nós que sentimos e sofremos, que o Planeta não é nosso, mas nós é que somos dele, que todas as espécies são igualmente importantes.

Mas como explico às minhas filhas, alunos e leitores, que num País de descobridores, de pessoas inteligentes e capazes de encontrar soluções avançadas, ainda é permitido e legal torturar seres vivos? Que ainda podemos caçar por “desporto” e não por sobrevivência como o homem primitivo? Que ainda podemos torturar touros e cavalos em arenas iguais às que se vêm em ruínas da Era Romana?

Como lhes explico que todas estas atrocidades que são cometidas hoje, que começaram milhares de anos antes dos Descobrimentos Portugueses, quando o homem tinha que caçar para sobreviver, quando os homens eram bárbaros e pensavam que era divertido torturar animais e pessoas, e que, apesar de todas as descobertas, avanços e aprendizagens que fizemos desde há mais de 500 anos, continuam-se a praticar estas tradições seculares, que mais devem a rituais macabros de diversão e prazer, por pessoas que chamam cultura à tortura dum animal, dum ser vivo senciente.

Definição de cultura: conjunto de costumes, de instituições e de obras que constituem a herança de uma comunidade ou grupo de comunidades
Portugal tem heranças bonitas. Heranças visuais, auditivas, tactéis... Heranças que devemos preservar porque nos distinguem de outros povos, culturas e civilizações. Heranças cruéis não são motivo de beleza para a história de um País, duma nação. Queremos ser conhecidos pelo povo que tortura touros por prazer, que caça raposas de forma violenta com paus e matilhas, por divertimento, que mata patos e lebres a tiro porque é mais engraçado do que atirar para um prato? Ou queremos ser conhecidos pelos nossos monumentos, pela nossa história, pela música, pelo fado, pelo vinho, pelo artesanato local... Há heranças a preservar, e heranças a esquecer, heranças que magoam animais e pessoas, porque são erradas, são desumanas.

Como explicaria eu às minhas filhas, alunos e leitores que, nos dias de hoje, seria parte da cultura e, perfeitamente normal, perseguir pessoas de raças diferentes, enforcar homens que falaram o que não queriam que se falasse apenas, queimar mulheres que faziam chás para dores, vender crianças para trabalho, atirar pessoas aos leões para os ver a lutar até à morte? Evoluímos, felizmente, em tudo isto, mas quando se trata de rituais com animais, de caça, de circos, de tráfico de animais, de corridas, de touradas, etc etc etc, continuamos na mesma?

Há uma diferença entre cultura e automatismo. As pessoas acreditam que devem perpetuar a repetição de certos acontecimentos dos seus antepassados, só porque eles os faziam, mesmo que sejam errados ou cruéis. Essas pessoas não estão a partilhar ou a celebrar cultura, mas apenas a bloquear a passagem do tempo, em vez de evoluírem.

Sinto orgulho no meu País quando o vejo evoluir, sinto orgulho quando noutro país falam bem do nosso País, por ser lindo, por ter pessoas tão simpáticas, pela arte de cada região, senti orgulho quando, finalmente, fizeram algumas pequenas evoluções para proteger os animais que vão parar aos circos, quando criaram a nova lei que deu um estatuto aos Animais, sim, fiquei feliz e com orgulho de Portugal. Mas depois, o tempo foi passando e foram surgindo aquelas “alíneas” que me mostraram que, afinal, estava tudo tão incompleto ainda… E fui percebendo que, o novo estatuto de “animal senciente” não é para todos os seres vivos, mas apenas para os animais domésticos (e não todos), e a nova lei não protege os cães de corrida, os animais errantes, os cavalos que entram nas touradas, as raposas que são caçadas, os animais que são maltratados nos circos, os animais que estão fechados em canis sem condições… a lista é enorme…

Pensemos como uma pessoa que vê o País do lado de fora. Pensemos em África, que vive numa extrema probreza e onde a caça é uma constante, acham que se eles tivessem uma vida normal como nós, com salários e supermercados para comprar comida, iriam caçar?

Vejam estas duas notícias, uma dum País de Terceiro Mundo e a outra dum País de Segundo Mundo:

“O governo do Botswana anunciou esta quinta-feira o fim da proibição da caça aos elefantes. A medida foi justificada pelo impacto que o aumento do número de elefantes estaria a ter junto dos agricultores e das populações.”
“Os quatro projetos de lei do PAN, BE e PEV para a proibição da caça à raposa e ao saca-rabos foram chumbados esta quinta-feira no parlamento com votos contra do PSD, PS, CDS-PP e PCP. (…) no sentido de acabar com a possibilidade daquela atividade autorizada em Portugal entre outubro e janeiro, inclusivamente com recurso a paus e com matilhas de até 50 cães.

Acho que isto diz muito do nossos políticos, pessoas que têm o poder de tomar decisões importantes e humanas também, por nós, mas chumbam projectos de lei que acabariam com a tortura de seres vivos, tais como nós. Como explicar às minhas filhas, alunos e leitores, que os nossos adultos e políticos, são pessoas sensíveis e preocupadas com o Planeta e os seres vivos, se, realmente, mostram o contrário com as suas atitudes?

Há 10 anos atrás, a 4 de Junho de 2008:

“A transmissão da tourada pela RTP, prevista para as 17h de domingo, não poderá acontecer antes das 22h30, decretou o Tribunal de Lisboa, que considerou o programa «violento e susceptível de influenciar negativamente crianças e adolescentes». A decisão foi tomada na sequência de uma providência cautelar interposta pela Associação Animal que visava restringir a exibição televisiva de touradas pela RTP.”

10 anos depois, em 2018:

“Conjunto de 44 concelhos com atividade taurina estão contra "discriminação" da proposta do Governo, que trava a redução do IVA para 6%. Alcochete e Vila Franca de Xira já tomaram posição contra ministra da Cultura”
O primeiro-ministro espera que “a proposta que foi apresentada pelo governo seja aprovada e que haja redução da taxa do IVA para espetáculos de teatro, de dança, de música, mas que não haja efetivamente uma redução da taxa do IVA para os espetáculos tauromáquicos”. “Lamento”, “é errada essa proposta”, “obviamente, se fosse deputado do PS votaria contra, “há uma divergência, espero que a posição política do governo seja vencedora.”

Há 149 anos atrás, em 1870, quando tentaram voltar a introduzir as touradas no Porto, estando a população em geral contra, o Comércio do Porto escreveu:

"Vê-se que infelizmente se porfia no intento de introduzir nesta cidade um divertimento contrário à índole e hábitos dos seus habitantes, porém ainda que o não fosse, nem por isso ele deixaria de ser menos condenável e digno de reprovação".

Quase 150 anos depois, 2019, ainda há portugueses que gostam de ver o sangue a escorrer dos animais, ao vivo e a cores, num dos maiores “espectáculos de horror” que conheci até hoje em Portugal. Lembro-me de ver pinturas rupestres semelhantes às touradas, pinturas do Paleolítico Superior, há mais de 15 mil anos!

Como vou explicar a todas as crianças, que evoluímos tanto, na tecnologia, na navegação, na ciência, etc, mas continuamos a ser tão ou mais negligentes e cruéis, que alguns antepassados, com estes seres inocentes?

Para esta índole, encontro uma explicação, ao contrário do que se diz por aí, e eu própria já o pensei, não é ignorância, não é porque vivem numa aldeia sem acesso à informação, que não sabem que os animais sofrem, os meus avós eram da aldeia e respeitavam e cuidavam dos Animais. Também não é iliteracia, falta de formação ou conhecimento, vemos muitas das crueldades a animais serem praticadas por pessoas com toda a formação e mais alguma, por jovens universitários, entre outros. São as desculpas que se arranjam, mas as pessoas não são ignorantes a esse ponto, as pessoas sabem, mas, simplesmente, não querem saber, seja por falta de sensibilidade, ou porque o prazer e a ambição são mais importantes do que a compaixão e a dignidade.

Nenhuma tourada pode ser transmitida pela RTP Internacional porque a maioria dos países não permite a sua divulgação devido ao seu carácter violento, e ao poder que a televisão tem a moldar o carácter das pessoas.

Só entrei uma vez numa arena, na minha cidade, tinha 6 anos de idade e o meu pai levou-me à Tourada de Espinho, para ver o Rui Veloso tocar, porque a tourada ainda existia mas ali já não entravam touros há muitos anos! Digo-o com orgulho sim. Espero que as outras dezenas de cidades tenham um dia Presidentes com a coragem de remar contra a maré, pela justiça e pelo bem, pelo fim das touradas.

Porque agora não posso dizer às minhas filhas, alunos e leitores, que as pessoas não querem saber dos outros, muito menos dos animais, e principalmente quando têm “benefícios” em troca de decisões erradas, porque eu quero que as crianças acreditem, no futuro, nos homens, na vida, e que se tornem melhores do que somos agora. Que tomem as decisões certas, que sejam ambiciosos sim, mas para o bem.

Deixo-vos apenas com um exemplo de coragem, porque fez o que estava certo contra todas as probabilidades:

“Em 18 de Fevereiro de 2005 entrou em vigor a lei "The Hunting Act", que proíbe a caça de raposas, renas e lebres, uma prática de 300 anos na alta sociedade britânica e que tinha entre os fãs nomes como o príncipe Charles e sua mulher, Camilla Parker Bowles. O governo do então primeiro-ministro Tony Blair aprovou uma das leis que mais polémica causou nos últimos tempos na Inglaterra e País de Gales....”

Por fim, deixo aqui, uma pequena citação do nosso Primeiro-Ministro, António Costa:

 “Como homem da Liberdade tem também de respeitar os cidadãos que, como eu, rejeitam a tourada como manifestação pública de uma cultura de violência ou de desfrute do sofrimento animal”.
Todos sabem que é errado, mas ainda ninguém com o devido poder, teve a CORAGEM de o mudar. Por favor, sejam essa pessoa, sejam Humanos, sejam justos. Quero dizer às minhas filhas, alunos e leitores que se orgulhem de Portugal, que os Portugueses são um povo de coragem, humanidade e justiça, um povo cheio de história e heranças, um povo que defende, respeita e protege TODOS os Seres Vivos.


Sandra Reis


3 de julho de 2019

Nas Notas do nosso Destino



Enquanto conduzia até ao Concerto, sentia-me novamente uma adolescente apaixonada. Aquele sentimento avassalador que nos faz palpitar o coração com demasiada força, que nos enche o peito de ar que parece que não sai, que nos faz brilhar os olhos como faróis no mar e sorrir de felicidade.
 

Tu não sabias se eu conseguiria aparecer e eu conduzia o mais depressa que podia para te dizer "Consegui! Estou aqui!". Estava ansiosa. Era a primeira vez que te ia ver a tocar. Quando te vi e chamei, no meio de toda a turbulência, de toda a multidão, vieste a correr ter comigo e apertaste-me com força, cheio de felicidade, e eu, abracei-te, com os meus braços e o meu coração.

Uns minutos depois subiste ao palco. Não consigo descrever o que senti ao ver-te e ouvir-te a tocar. Uma mistura entre admiração, orgulho e êxtase.


Cada corda que vibrava, tu vibravas com ela, cada som fazia-te brilhar por dentro, o teu corpo transbordava emoções e sentimentos. A cada solo que tocavas, eu via-te como nunca te tinha visto antes. A tua sensibilidade, a tua vulnerabilidade, a tua força, deixavam-te sem fôlego. Tu respiravas a música, como eu.

Conforme as cordas vibravam, as ondas de som agitavam todo o ar à minha volta, e transportaram-me, duma forma tão realista, duas décadas atrás, para ter a oportunidade de te reencontrar e te ver a tocar, quando ainda éramos adolescentes, naquela Academia de Música, onde nos cruzávamos nos corredores, onde te sentavas no banco do alpendre, mesmo por baixo da minha sala, com a guitarra ao colo nos fins de tarde.

Naquele instante, em que te vi tocar guitarra, reencontrei-te nos corredores da velha Academia e encontrei-te olhos nos olhos pela primeira vez.. tínhamos novamente 17 anos, tu tocavas guitarra na cave, eu cantava na torre do primeiro andar, ambos abafados pelo som dos saxofones no rés-do-chão.

Hoje o rés-do-chão da nossa história silenciou-se, para que nos pudéssemos reencontrar nas notas do nosso destino.

in  "Duas Décadas à tua Espera" (excerto III), Sandra Reis

29 de junho de 2019

Sob um manto de balões iluminados



O Porto não seria o Porto sem a festa de S.João. Para mim, esta é uma expedição inimitável, não há outra igual, e tudo por causa das pessoas e da cidade, que à noite ainda é mais linda.

Começa antes do pôr-do-sol e acaba só depois do sol nascer. A noite inunda~se de sorrisos, música, bandeirinhas, alhos porros, manjericos, quadras, gargalhadas, palmas, onomatopeias de alegria, festejo, brincadeira, e como pano de fundo, o som dos martelos, imparável. No céu, um manto de balões iluminados, uns a subir, ainda perto, outros já longe, a voar com o vento, como uma noite mágica da Disney.

Há muitos anos que eu não ia para a baixa festejar esta noite. Lembro-me que quando percorria as ruas do Porto nesta noite, há mais de oito anos atrás, descia e subia as ruas com os passeios cheios de gente, agora, os passeios não tinham limites, todas as estradas estavam cheias, sem trânsito, sem carros, milhares de pessoas lado a lado de martelo na mão.

É absolutamente fantástico partilhar as ruas do Porto com milhares de desconhecidos, de que nem os nomes sabemos, ou se algum dia nos voltaremos a ver-nos, mas serão, durante uma noite inteira, os nossos companheiros de diversão, os nossos conhecidos de S.João.

Embora a qualidade das fotos não seja boa, porque só levei o telemóvel, dá para mostrar alguns pequenos pedaços da noite ;)





















Sandra Reis

17 de junho de 2019

Um Amor Proibido



"Porque cada poema tem uma história para contar, só temos que a querer ouvir." S.R.


Hoje vou-te dizer um segredo...

Desculpa ter-te mentido
Mas se o dissesse antes ter-te-ia perdido...
 
Não te amo como te disse
Não te amo sem amor
Não te amo sem paixão
Não te amo sem desejo
Não te amo como amigo
Não te amo como irmão
Não te amo como homem
Não encontro explicação

Não te amo como no dicionário
Não encontro uma definição
Não há palavras
Reinventa a imaginação
Não te amo só com o coração
Amo-te com o espírito e a alma
És a minha força e a minha calma
És o meu ar, a minha compleição

És o meu mar e o meu Céu
Completas cada pedaço meu
Agarras a minha mão
Para me salvar
Quando o teu mundo
Está a desmoronar...
Pões-me num pedestal
Mesmo se não devia estar

Dás-me asas para voar
Se estou acorrentada
E mesmo em lágrimas afogada
Sinto o meu coração crepitar
Numa fogueira enfeitiçada
Fazes o meu corpo atear
E o meu sorriso cintilar
Tal centelha encantada
Ouves-me tão longe,
Mesmo se não digo nada

Foram milhares de noites
De olhos no Céu
E sonhos na Lua
À espera do momento
Para voltares a ser meu
E eu poder ser tua

...

E esse momento que parecia chegar
Foi como uma nuvem
Impossível de agarrar... 

Estamos juntos,
Dás-me a mão, apertada,
E um beijo que extingue o Mundo
Mas não me podes dar mais nada...

Um passado que não podemos emendar
Demasiado distante para salvar
Não nesta época...
Não neste tempo....
E a cada abraço só resta acreditar,
Continuar a esperar...
De mão dada,
A inspirar o mesmo ar
De um amor proibido
Pelo tempo...
Pela vida...
Com raízes, sem semente
Tão forte, tão puro, tão crente
E mesmo que seja impossível
Reluzirá eternamente

...

E enquanto esperamos
Por outro tempo
Por outra vida
Trocamos mais um sorriso, um olhar,
Pousamos uma mão na outra
Damos mais um abraço
Para conseguirmos respirar...


Sandra Reis




14 de junho de 2019

The Show must Go On!



"Em cada milímetro da Terra e do Espaço, nas pedras, na areia, nos vulcões,
num buraco negro ou no chão mais estéril... encontraremos vida!"
Sandra Reis

Quando sentimos que chegamos a uma rua sem saída, uma encruzilhada, um impasse, e não sabemos o que fazer, e nos sentimos presos, e a altitude é demasiado elevada para saltar, quando o medo absorve todo o nosso espírito e à nossa volta não vemos desvios, tudo parece coberto por vedações, muros, arbustos, todas as portas parecem fechadas... Mas a vida tem que continuar! Temos que dar o passo em frente, temos que saltar, subir a vedação, trepar o muro, atravessar os arbustos mesmo que possa assustar, rodar todas as maçanetas sem hesitar. Quando tudo parece perdido ou sem saída... temos que voltar a acreditar, voltar a sorrir, porque a vida vai, e TEM, que continuar!


"The show must go on
The show must go on
Inside my heart is breaking
My make-up may be flaking
But my smile still stays on"

Compositores:
Roger Taylor, John Deacon,
Brian May, Freddie Mercury


Freddy Mercury, um artista magnífico, sensível, incomparável, insubstituível! A paixão, a voz, a criatividade, a inteligência, a vida, fizeram dele um ser ÚNICO!
Os Queen fizeram parte da minha infância, da minha adolescência, estão na minha vida desde o dia em que nasci. Fazem parte da minha história e fizeram-me apaixonar, incondicionalmente, pelo Rock.
O Freddy não morrerá nunca, a vida dele transborda nas nossas, todos os dias, a força dele não se extingue, é intemporal. Que seja sempre recordado pelo enorme valor que tinha como ser humano, pela paixão com que vivia a música, pelo que nos ensinou a todos, e pela força que exalava magistralmente, como ninguém!



 

11 de junho de 2019

Finalmente... Completos





Neste longo caminho tantas vezes pensei que tinha encontrado o amor… Tantas vezes o pensei ter perdido… Mas hoje, enquanto caminhava, ouvi uma voz ao longe que não me era estranha, uma voz que me fez estremecer, um som que trouxe milhares de recordações e imagens que pensava esquecidas e apagadas. E, logo ali, numa curva do meu caminho com o teu, num momento inesperado, cruzámo-nos pela primeira vez em vinte anos. Ao olhar-te nos olhos vi algo inexplicável, vi uma história dentro deles, ainda por escrever, e eu estava lá. Estavas parado sem te mexer a olhar-me nos olhos, senti-te tão vulnerável que me senti como um fogo a derreter um lago gelado há centenas de anos. Naquele instante eterno, em que os nossos olhos se encontraram foi quando percebi a verdade. Neste longo caminho cheio de desvios, separações e reencontros, nunca cheguei a perder o amor, porque, afinal, nunca cheguei a encontrar o amor, até te ter reencontrado.

Desde que nascemos as nossas vidas cruzaram-se, e, apesar de termos estado sempre tão perto todos os dias, de nunca termos ficado um único dia realmente longe um do outro, e de todos os que tu conhecias serem os mesmos que eu conhecia, de todos os sítios onde ias serem os mesmos onde eu ia, de todos os nossos caminhos terem sido os mesmos caminhos, de apanharmos as mesmas gotas de chuva no cabelo, de nos deitarmos na mesma areia e nos molharmos na mesma água do mar, de subirmos e descermos os mesmos degraus velhos de pedra, apesar de até os nossos sonhos serem os mesmos, nunca nos olhámos verdadeiramente, nunca falámos um com o outro.

Num dia, o destino decidiu separar os nossos caminhos, e durante duas décadas não nos voltamos a cruzar. Contudo aqueles que conheces continuam a ser os mesmos que eu conheço e os sítios onde vou continuam a ser os mesmos onde vais, mas os caminhos que seguimos passaram a ser diferentes, e cada vez que o tempo abranda para um, acelera para o outro.  E assim se passam, duas décadas sem nos voltarmos a ver, e um dia, os nossos caminhos cruzam-se novamente, duma forma explosiva, como se existisse um propósito maior. Sem sabermos ainda, começamos a perceber que, por alguma razão, estava destinado, sempre esteve... e sentimos isso porque faz sentido quando estamos juntos, porque somos perfeitos juntos.

Finalmente percebemos que todo o passado foi um caminho que fomos construindo para chegarmos um ao outro, como se existisse uma parede invisível estes anos todos que nos permitia estar próximos, mas inalcançáveis.

Um amor verdadeiro, em que não esperamos nada um do outro, em que nos apaixonamos de olhos vendados, sem influência física, um amor que todos procuram. Como se cada um de nós tivesse sido um pedaço desconhecido do outro num passado distante, e agora que os nossos pedaços desconhecidos se encontraram, nós ficamos, finalmente... Completos.


in "Duas Décadas à tua Espera" (excerto II), Sandra Reis
 

29 de maio de 2019

Paixão




 Lágrimas quentes
Arrefecem o meu rosto
Lágrimas geladas
Aquecem-me o coração
Rolam
Ondulam
Ininterruptamente
Sobre a minha pele
Fria de tão ardente
Descompassam-se ao cair
Bradam ao tocar o chão
Estilhaçam-se em cacos líquidos
Incendeiam água
Despedaçam asteróides
Em pingos de paixão


S.R.